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Diário de Bordo
Unir as costas do Atlântico e Pacífico,na odisseia de uma vida pelas estradas da Europa e Ásia.
Dois Oceanos, dois Continentes, oito fusos horários distintos, 50.000km cumpridos a 70 km/h entre o Porto e Pequim ao volante de uma verdadeira lenda da estrada. Todo um novo mundo descobrir, a aventura de uma vida transformada num projecto com forte impacto social.
Estás pronto para o desafio?
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Quinta, 09-JULHO-2009
Regresso ao Porto de Partida

Duas fronteiras mais e estará o sonho concretizado num círculo de forma tão original como a própria aventura. Mesmo apenas à distância de duas fronteiras e tendo uma delas já aqui mesmo ao lado, parece-nos ainda um cenário difícil de acreditar.

Enquanto nos entretemos com os últimos km de estrada, lançamos um último desafio: deixem o conforto deste banco de trás virtual que ocuparam o longo dos últimos 15 meses e venham ajudar-nos a dar o ponto final nesta enorme aventura!

Aqui fica o programa para a chegada esta sexta-feira, dia 10 de Julho:

  • 11:30 – entrada em Portugal pela fronteira de Quintanilha
  • 17:30 – concentração de 2cv na estação de serviço de Vila Nova de Gaia (junto ao nó de Santo Ovideo)
  • 17:45 – Cortejo de 2 Cavalos até ao Estádio do Dragão
  • 18:30 – Cerimónia de Chegada no Estádio do Dragão (junto ás bilheteiras da Alameda do Dragão)
  • 21:30 – Jantar / concerto / festa de encerramento da Aventura.

O Jantar terá lugar no 4ever Club (indicações em http://www.2cvmarathon.com/nm_noticia.php?idnoticia=16), com início ás 21.30. Após o jantar, haverá uma breve apresentação da viagem (incluindo algumas das fotos, filmes e histórias da aventura), a que se seguirá um momento muito especial: um concerto dos Yemmandala, onde será apresentada oficialmente a música do projecto, Linha da Mão, composta pelo grupo (tanto a “nossa” como outras músicas deste novo projecto de Bossa Nova podem ser escutadas em http://www.myspace.com/yemmandala).

Informações e reservas através do telefone 914542545.

Escrito por: Anónimo, 07:27:05 | Comentários(3)
Quinta, 02-JULHO-2009
E o Porto é já só do outro lado... do continente!

Caros amigos,

Daqui a cerca de 30 minutos (assim me permita o trânsito de umas das maiores metropoles do mundo) o Deuch e eu iremos cruzar a ultima fronteira intercontinental desta enorme odisseia que nos levou do Porto até às margens do Oceano Pacífico.

Quis a geografia recolocar-nos no continente Asiático ao trocar as margens do Mar Negro, tornando assim ainda mais marcante a passagem por esta cidade que está já já muito bem tatuada em mim. Istambul foi em 2007 o ponto mais distante da até aí mais distante roadtrip que havíamos abraçado. Esta cidade mágica surge agora como a mais perfeita metáfora do rumo que as nossas vida tomou neste dois últimos anos e de todas as implicações que esse rumo teve em quem agora somos. Isto porque Istambul marca hoje o início do final da nossa aventura. Como o mundo “encolheu” nestes últimos 24 meses!

Partimos rumo a casa. Não queira o “Pequenino” voltar a trocar as voltas e estaremos de volta a casa ja no dia 10 de Julho. E sim, de 2009. Conto com a presença de todos nesse dia para o “banho de normalidade” de que estamos ambos tão necessitados.

E o Porto é já só do outro lado...do continente!

Até breve,

tma

quando trocamos a margem norte do Mar Negro pela sua margem sul. Quis a geografia tornar ainda mais marcante a passagem pela cidade que está já há muito, bem tatuada em mim. Istambul marcou em 2007 o ponto mais distante da até aí mais distante roadtrip que havíamos abraçado. Dois anos volvidos

Escrito por: tma & Le Deush, 05:14:33 | Comentários(7)
Terça, 02-JUNHO-2009
viajar...

Pois, viajar é isto mesmo...

6.30 da manhã... uma última noite em casa que faz de Julho um mês tão distante, os relatórios de estágio do meu desassossego que, um a um, me sossegam quanto ao rumo tomado, uma curiosidade anterior à partida que completa a minha noite em branco por pela primeira vez estar centrada no próprio ponto de partida. Juntando a este cenário uma mala por fazer e a perspectiva de 24 horas passadas entre voos, aeroportos e transferes e o dia não poderia começar de melhor forma.

Ou assim pensava eu... Sem dúvida que as companhias low cost fizeram as rotas de viagem mais curtas e sobretudo mais democráticas. Mas, e o que é feito do prazer de voar? Um check in onde as surpresas são sempre desagradáveis e quase sempre com peso na carteira, um embarque em que o centímetro é discutido ombro a ombro... sobra a ilusão masculina de nos parecermos enormes face ao exíguo espaço entre cadeiras e o saber que a nossa noite branca será compensada por um sono não interrompido por refeições ou quaisquer outras amenities. Isto, claro, se tiverem mais sorte do que eu e conseguirem dormir de estômago vazio.

Perdido de sono, fecho os olhos e preparo-me para falhar o take off quando uma mensagem da hospedeira me traz de volta a uma realidade ainda mais cruel: Passageiro Moreira Alves, é favor dirigir-se à entrada do avião. Há qualquer problema com a minha mala, a mala que transporta a razão técnica (importante, mas longe de ser a decisiva) deste meu regresso: as peças necessária à reparação do meu Pequenino.

Chegado à frente do avião sou informado que a minha mala não passou no processo de triagem, pelo que tenha de abandonar o avião e dirigir-me ao local de expedição das bagagens. No caminho, os possíveis cenários vão-se perfilando na minha cabeça: o que fazer se o cilindro não for “triado”? Poucos minutos mais tarde, finalmente o respirar fundo: o responsável pelo controlo por Raio X apenas se queria certificar que as peças transportadas não tínham resíduos de gasolina.

De volta ao avião, um viajante igualmente tagarela que partilhava o meu lado da fila toca-me na ferida: Então não o queriam deixar viajar? Desculpe, disse “viagem”? Estilos de vida e experiências de viagens distintos, mas um mesmo prazer pelo abraçar de novos contextos de espírito aberto e dispensando mediação e nunca um voo Porto Girona terá sobrevoado tantos pontos do globo. A conversa seguiu tão animada que as apresentações chegaram apenas já com os pés assentes na terra. Entre troca de dicas de viagens e contactos, um inesperado conforto para a alma nómada que insiste em tomar conta do meu espírito: vai-me mantendo actualizado sobre as próximas aventuras que a a Tubembal talvez esteja disposta a dar uma mão numa próxima iniciativa.. Aurélio, potenciais futuras cooperações à parte, nunca pensei estar a falar elogiosamente de quem tivesse contribuído tanto para alargar a minha noite me branco bem para lá do meio-dia. Sobretudo considerando que a directa continua a acumular segundos, minutos, horas.

Girona acolhe-me com um dia solarengo temperado QB e uma óptima má notícia: não há transfers directos para o aeroporto de El Prat. Tenho obrigatoriamente de me dirigir para o centro de Barcelona. Os sacrifícios a que me sujeito...

A hora e meia de autocarro que nos separava do nosso destino (intermédio) prometia a tão desejada power nap, mas o dia de hoje não quer decididamente nada com o Joao Pestana. Enquanto retoco a mala, reconheço de imediato o espírito de uma fellow lonely traveller. De conversa fácil, desinteressada e interessante, a Julia parte da sua ainda paixão ainda bem fresca pelo Porto e Portugal para uma vez mais comprovar que a austrália continua a exportar os viajantes mais boa onda. Histórias e projectos que me fazem perceber que há aínda muito Mundo por explorar. Entre a nossa conversa em Inglês e umas tiradas em Italiano, uma pergunta inocente: quantas línguas falas, Tiago? Conheço uma empresa do ramo do turísmo que provavelmente apreciará este teu estilo de vida enquanto construtor de um invejável CV? Oi?!

E aqui estou, no centro de Barcelona, a apreciar os pequenos grandes prazeres de estar numa sociedade que aprecia esses mesmos pequenos grandes prazeres da vida enquanto digiro um belo almoço com um delicioso café com gelo. Como a ameaça de uma monótona maratona de voos e transferes se transforma num potencial colaborador de futuras aventuras, no contacto junto de um empregador que potencialmente verá no ano mais louco da minha vida um importante asset para a sua estrutura e, sobretudo, no privilegio de roubar um par de horas a um par de pessoas cujas experiências de vida ainda me fazem corar de inveja.

Impossível não dar por mim a pensar o que tenho andado a perder em todas aquelas horas em que me deixo vencer pelo sono...

Pois, viajar é isto mesmo...

Escrito por: tma, 08:00:48 | Comentários(5)
Terça, 19-MAIO-2009
Welcome my Muslim sister

I know you all should have a great deal of questions on the top of your tongues for quite some time now. Sorry to say I will be very brief on the topic. I am currently in my favourite town in the World, Istanbul (just confirmed it once more), while the White Little One is once more lost in the depths of Russia with a mechanical problem which could not be fixed on sight.

But enough about me, about us, because today is all and only about one of the most extraordinary human beings I had the pleasure of meeting and, above all, have the enormous pride of calling a brother: Emin, In fact, for sometime now, Emin and his more than everything, Beste.

Emin and I go a long time back and he is someone already familiar to those of you who have been following my prior roadtrips. We lived and worked in Brussels for one year back in 2003/04, together with, among others, Isa, Iulia and Sara; the Blue Team that once more comes together for one of its more important and pleasuring missions: Beste’s and Emin’s weeding.

I can not put into words how great of a feeling it is, 5 years past, to see all of us older, wiser (ok, ok, some, aka you guys, more than others, aka me), certainly evolved, pretty much leaving the lives we were dreaming of and, most reassuringly, still exactly the same Isa, Iulia, Sara, Emin and Tiago we were back then.

But today one of us has the spot light and we proudly welcome a new member among us. About Emin I can hardly say much more. A brother who, like my blood one, no distance can make apart. About Beste I only have to drop few words to say it all, even if at the risk of steeling a line of the speech Isa will held later tonight during the weeding ceremony: we could all only dream of one day seeing Emin being as happy and complete as he is with you. You are probably the only girl I have ever been jealous of. But as I’ve told you earlier today, I forfeit: you won

One last line to you, Muslim Brother: if little Emin would be looking at you today, seeing all you already achieved and the smile and inner peace present in your eyes, he could only be as proud as we all are.

The rush of emotions I have been living over the past couple of days are pretty close to what I always imagined to be experiencing in my own weeding: that is how happy I am. Happy and, once more but never too many, proud. So allow me to again steal a quote that so well fits this remarkable day for you and Turkey:

NE MUTLU EMIN VE BESTE NIN ARKADASIYIM DIYENE!

Escrito por: Anónimo, 03:27:31 | Comentários(2)
Quinta, 09-ABRIL-2009
Mea Culpa
Uma curta mensagem, ja desmascarada pelo seu titulo.

Depois da mais louca das corridas da minha vida (e modéstia a parte, o termos de comparação já vai tendo algum peso), uma saída da Rússia / entrada da China surreais e uns mais do que necessários dias de descanso. Quando a escrita se tornou possível, dois ja conhecidos inimigos: primeiro uma calma impotente de descrever com o mínimo de fidelidade toda a emoção dos 3000 km que ligaram Vladivostok a Zabaikalsk; depois, a nossa contradição de sempre: viver ou deixar de o fazer para contar o já vivido.
 
A nossa opção adivinha-se na necessidade desta mensagem.
 
As nossas desculpas, mesmo estando nos longe de nos sentirmos culpados.
Ate (muito em ) breve,
tma & Le Deuch
Escrito por: Anónimo, 12:39:52 | Comentários(8)
Sexta, 27-MARÇO-2009
ìû òîæå âëàäååì âîñòîêîì
Conseguimos!

Após uma inacreditável jornada pela profundezas da Sibéria, sobrevivendo as péssimas estradas (estradas?!), as agruras do inverno local, ultrapassar dezenas de pequenos e não tão pequenos problemas e uma interminável cadeia de fantásticas aventuras, conseguimos por fim atingir a maior das nossas barreiras psicológicas. 14 de Março de 2009, cerca das 5 da tarde pela hora local. Ainda incapazes de assimilar a torrente de emoções e sensações que nos invadira, apenas eramos capazes de processar um só pensamento: ìû òîæå âëàäååì âîñòîêîì!!! (Mi toje Vladiem Vostokom) Nós também temos o Este!!!

Afinal, parece que sempre é possível!

Só horas mais tarde, já em plena celebração tal qual ela se impunha (umas das mais surreais noites da minha vida; afinal de contas, a celebração tem de corresponder à coisa celebrda), começamos por fim a assimilar todo o peso de 23.000 km e dois continentes feitos de ponta a ponta. Costa a costa, Atlântico ao Pacífico, uma leve e simpática Casca de Nóz e um improvavel Português. Mas sobretudo, um sonho tornado realidade. Vladivostok continua a ser um longíquo ponto no mapa do nosso imaginário. Mas apenas porque o nosos imaginário é hoje quase do tamanho do mundo.

Aproveitei os dias seguintes para por fim ter um merecido descanso. Mas enquanto eu retemperava energias, o Deuch tornava-se o carro mais popular na cidade. Uma vez mais, se apenas recebessemos 1ˆ por cada foto tirada. Juntando o facto de o Slava ter passado palavra da nossa chegada a alguns colegas de Vladivostok, lá caímos uma vez mais no radas da imprensa Russa. Duas reportagens para televisões locais, uma sessão fotográfica para uma revista de automoveis e dezenas de fotografias espalhadas por diversos foruns na internet e tornei-me oficialmente o mais louco português alguma vez em Vladivostok. Se bem que a localização geográfica de Portugal continue a ser por vezes um mistério. No sábado passado fui reconhecido pela caixa do supermercado, que fez questão de me apertar a mão, repetir até à exaustão a palavra respekt e me desejou um bom regresso... à América do Sul. Ainda me escapa porquê, mas toda a gente tem Portugal como um País quente, tropical e de vida relaxada. Mesmo aqueles que me sabem Europeu.

Déjà vu?

Sexta-feira de manhã, ligo o meu computador, entro no website do CouchSurfing (http://www.couchsurfing.com/) e começo a escrever no forum de Vladivostok: O meu nome è Tiago, estou a fazer uma roadtrip entre o Atlântico e o Pacífico num citroen 2cv; o meu carro avariou e estou neste momento à espera que a nova peça chegue da Europa. Alguém me pode dar guarida? Se eles soubessem no que se transformou uma similar mensagem de aspecto trivial em Ekaterinburgo, aposto que ninguém teria coragem de me responder.

Como é natural, os muitos km, as dificeis (para ser simpático) condições de estrada e as agruras do inverno deixaram marca no Deuch. Os platinados estavam completamente gastos, sendo impossível iniciar o motor. O mais curioso é que o meu amigo parou 5 minutos depois de termos acabado de filmar a segunda reportagem para a televisão. Vaidoso, o menino.

A única forma de ultrapassar o problema é substituindo os platinados, os quais obviamente não podem ser encontrados aqui e terão de vir da Europa. Já conseguem ver o padrão? A primeira medida foi ligar ao Sr. Magalhães para confirmar o problema. Uma vez confirmado, começamos de imediato a tratar do envio, com a preciosa ajuda do meu pai e do próprio Sr. Magalhães. A nossa experiência e o facto de desta feita a peça em questão ser pequena ao ponto de caber num normal envelope de correio joguem a nosso favor. A comprovar. Entretanto, a minha caixa de correio foi invadida de respostas ao pedido feito através do CouchSurfing e tinha já tudo acertado para ficar hospedado em casa da Julyia e do Greg a partir do dia seguinte. Quem disse que a vida tem de ser complicada?

Para além de serem excelentes anfitriões, a Julyia é uma excelente cozinheira e o Greg percebe bastante de mecânica. Juntando o conhecimento dele à minha experiência (que já vai sendo considerável), já pusemos o Deuch pronto a receber os novos platinados. Enquanto espero, vou-me deixando mimar pelos pratos da Julyia, uma óptima companhia e diversos tours na cidade.


E…agora?

Bem, quanto a mim, mais uma bela refeição, seguida de um jogo de futebol com os amigos do Greg. Por esta altura já deviam saber que fazer planos não é propriamente o meu forte. Quanto aos nossos planos de viagem, posso apenas dizer que continuamos à espera da chegada da nossa peça e que o meu visto Russo expira esta segunda-feira, dia 30. Déjà vú?

Enquanto fazemos pela (difícil...) vida, deixamo-vos com mais alguns episódios das nossas aventuras na Sibéria.
 
DIARIOS DA SIBERIA

Dia 6 - Pesadelo Cor-de-Rosa

Adormecemos a maldizer o cinzento de um dia sem problemas para acordarmos para um dia em que nada ficou por acontecer. Be careful with what you wish, because you might just get it!

O dia até começou num tom positivo. O meu saco-cama passou o seu primeiro real teste ao seu carácter glaciar com distinção. A noite mais fria desde que estamos na Rússia (aliás, de sempre, claro está) passada de boxers e t-shirt foi surpreendetemente confortável. Dormi literalmente todo metido no saco-cama, o que me permitiu sempre manter uma temperatura corporal bastante agradável. O problema foi mesmo ganhar coragem para abrir o fecho no dia seguinte. Mas o Deuch resolveu dar-nos um empurrãosinho.

Isto porque ao contrário de mim, ele não tem ainda um saco-cama glaciar onde se aconchegar e os -30 graus fizeram mossa. Como sabem, desde que voltámos à estrada o nosso sono está estruturado em blocos de duas horas, entre as quais o motor do Deuch tem de trabalhar cerca de 15 minutos, impedindo-o deste modo de congelar. Até às 7 da manhã tudo correu sem problemas. Mas nesse controlo, os primeiros sintomas da torrente de problemas que aí vinham: parte do sistema eléctrico deixara de funcionar. Duas horas mais tarde, a bateria estava descarregada. Pese o ainda muito frio, a janela de oportunidade para agirmos era demasiado curta para nos darmos ao luxo de uns quantos snoozes. Em pouco tempo o motor estaria congelado, aumentando exponencialmente os nossos problemas.

Para completar o quadro deste doce despertar estávamos quase sem gasolina. Abastecer o Deuch tornou-se por estes dias num processo bastante doloroso: cerca de 10 minutos parado no imenso frio segurando o metal gelado do manípulo e, no final, ter de tirar as luvas para pagar, o que por estas bandas é sempre feito no exterior através de uma minúscula janela. Como de costume, havíamos rolado noite dentro praticamente até acabarmos o depósito, adiando o reabastecimento para a manhã seguinte. Isto porque é essencial não perder o precioso calor corporal antes de fazermos a cama.

Sem bateria, quase sem gasolina e motor prestes a congelar: ora então muito bom dia a todos! Como quase sempre acontece, a ajuda não tardou a aparecer. E como o Deuch os sabe levar: utiliza todo o seu charme para os atrair e quando dão por ela, os mais recentes fans já estão a empurrá-lo estrada fora. O mais impressionante é que o consegue fazer enquanto estampando nas suas caras um sorriso de orelha a orelha Afinal de contas, acabaram de ganhar o dia e uma história que será contada a todos até à exaustão.

Com a ajuda de uns clientes do café em frente ao qual havíamos passado a noite, lá pegámos de empurrão. Mas havia ainda que pôr gasolina. Ao escrever este post, mal posso acreditar que não me tenha ocorrido então utilizar a gasolina que tínhamos no Jerrican. Sobretudo porque sempre o tive em mente, mas apenas como plano B em caso de ficarmos mesmo sem gasolina. Quão mais fácil teria sido termos de deslocar apenas o Jerrican até à bomba de gasolina. Isto porque a bateria tardava em recarregar e enquanto saí por um par de minutos para atender uma chamada da mãe natureza, o motor desligou-se. Tentamos ligar a nossa bateria a uma outra, mas nem ponta de sinal. O problema era mais sério do que pensávamos. Novos fans, novo empurrão e de novo estrada fora. Para um ateu, irónico quantas vezes me encontro nesta situação: siga para a frente e seja o que Deus quiser.

Não era dia em que Ele nos quisesse facilitar a vida. Cerca de 20/30 km mais adiante e logo no meio de uma longa subida, ficamos sem gasolina. Seria a primeira vez do dia. Tempo agora sim para utilizarmos a gasolina que tínhamos no Jerican e procurar de novo quem nos desse uma mão para voltar a iniciar o motor. Ou melhor, uma corda, pois desta vez não fomos de empurrão, mas sim de ... puxão.

 

Precisávamos urgentemente de um mecânico. Até porque o próprio motor estava a funcionar de forma deficiente, com cortes no fluxo de gasolina, o que sempre aumenta bastante o consumo. Mas estávamos ainda a mais de 150km de distância de Kemerovo, a mais próxima cidade digna desse nome no nosso caminho. Uma distância perfeitamente ao nosso alcance...fosse ela verdadeira. Como é muito comum nas estradas russas, as distâncias indicadas nas placas não eram fidedignas. É pão nosso de cada dia uma placa indicar uma distância mais longa do que uma outra... 20 ou 30 km atrás. Uma chata trivialidade que as circunstâncias tornaram particularmente irritante.

A cerca de 20 km do destino, ficámos novamente sem gasolina. Havia ainda qualquer coisa no Jerrican, pelo que o abanámos até que vertesse a última gota e lá ficámos, uma vez mais, à espera de ajuda. Mas estávamos agora numa zona com muito pouco movimento. Cerca de 10 minutos sentado no para-lamas à espera que finalmente alguém se cruzasse connosco. 10 minutos em que finalmente tive a oportunidade de apreciar como estava bonito aquele dia solarengo, ainda e sempre vestido de branco. A Sibéria e as suas incontornáveis duas faces.

Novamente rebocados, desta feita por uma pick up que, uma vez estando o Deuch com o motor a trabalhar, nos escoltou até à saída para a cidade, garantindo que seguíamos pelo caminho mais curto. Ainda assim, não curto o suficiente. Já nos arredores Kemerovo, ficámos uma vez mais sem gasolina. Irremediavelmente desta feita. Agora teríamos de ser levados pelo resto do caminho. Mas por quem? Pela primeira vez na Rússia, parecia que todos quantos se cruzavam connosco tinham ganho uma consciência de segurança e responsabilidade na estrada by the book, recusando o habitual reboque por corda. Ainda assim, conseguimos que nos chamassem um reboque, que contudo nunca chegaria. Uma hora mais tarde e já desesperado com a espera interminável, resolvi voltar a apelar à camaradagem dos condutores russos. Sergey, que regressava a casa depois de um dia de trabalho, apressou-se a dar meia volta, atou-nos uma corda e lá fomos nós. Caramba, afinal sempre há Russos a sério nesta cidade!

Tínhamos apenas uns 4/5 km pela frente, mas hoje o Pequenino estava com um humor daqueles. Numa pequena subida, o carro do Sergey começa a sentir problemas. As rodas derrapam, fumo por todo o lado e nós mal nos movíamos... Adivinhem quem se lembrou de se juntar à festa: os nossos já bem conhecidos problemas nos travões. Foi o canto do cisne. Quando este amigo ataca, não há a mínima possibilidade de tirarmos o Deuch do sítio. O pobre Sergey olhava incrédulo, incapaz de perceber como é que uma coisa tão pequenina, frágil e de aspecto inofensivo conseguia dar tanto trabalho.

Mas a nossa sorte estava prestes a mudar: como sempre, o Pequenino sabia onde parar. Em poucos minutos, um grupo de russos com as roupas cobertas de óleo sai da casa em frente à qual estávamos. Tínhamos parado mesmo em frente a uma oficina de restauro de carros. BINGO!

Esperámos os 20 minutos da praxe até que os travões relaxem, empurrámos o Deuch até à garagem e mãos à obra. Em qualquer oficina em que pare, ele é o pior inimigo de qualquer outro cliente com urgência no serviço. De imediato, o restante trabalho é interrompido e todas as atenções se concentram na Klassna Machina. Bateria recarregada, sistema eléctrico arranjado, óleo mudado, travões afinados, motor isolado do frio e depósito cheio: em cerca de 3 horas, o Deuch estava um brinco. Mas já passava das 7 da tarde: demasiado tarde para os meus novos amigos nos deixarem arrancar. Fui convidado, ou melhor, positivamente obrigado a passar a noite em casa do dono da oficina, com direito a um belo jantar, a inevitável vodka e ainda um inesperado concerto de um músico local que se juntou a nós um pouco mais tarde.
 

E assim termina um dos mais problemáticos dias de estrada de sempre. Só mesmo o Deuch para conseguir pintar este pesadelo de cor-de-rosa.

Dia 7 – The little things…

Foi um despertar com a cabeça pesada, tomar um bom pequeno- almoço e deixar-me ser uma vez mais surpreendido pela hospitalidade russa. Os meus HOSTS não me deixaram partir sem antes conhecer os ex-líbris de Kemerovo. Com um taxista amigo a fazer de cicerone e com muita cerveja a rolar logo pela manhã (desta feita, com as desculpas de ter de voltar à estrada, escapei ileso), fui levado num tour de cerca de 2 horas pelo centro da cidade, com mais uma curiosidade que tenho de realçar: o gosto dos Russos em dar pequenos presentes aos estrangeiros, uma constante desde que entrei no país e que hoje foi por demais evidente. Ímans de frigorífico, cd’s do nosso convidado musical, um chapéu de Bania (a famosa sauna Russa) do exército vermelho, comida, entre diversas outras pequenas lembranças da cidade. Quando antes de partir perguntei pela conta, um aperto de mão, um sorriso e ainda a pergunta: tens a certeza que não precisas de dinheiro para a gasolina?

Tudo isto é tão mais surpreendente considerando que estas são pessoas que estão longe (bem longe) de ter uma vida desafogada. Uma vida que a actual crise financeira mundial apenas tornou (ainda) mais dificil. Ainda assim, em vez da óbvia oportunidade de fazer um dinheiro fácil à custa do estrangeiro, vêem apenas a emoção de viveram uma experiência única, optando por, com um pequeno gesto, fazerem uma enorme diferença na vida de um completo estranho.

Fizeram questão de me guiar até à saída da cidade, caminho no qual um dos mecânicos me fez companhia. Já bem tocado pela muita cerveja bebida ao longo da manhã, teve a viagem da sua vida. Não resistiu a mexer em tudo o que era botão (algo que sempre me cria um certo desconforto, confesso) e delirava a cada buzinadela ou aceno de apreço pelo Deuch por parte de com quem nos íamos cruzando, acenando efusivamente de volta. Um espectáculo.
Feitas as despedidas, atacámos o mais espectacular dia de estrada desta viagem: um bom piso, uma estrada bem desenhada, neve QB, um cenário idílico de baixa montanha cortado pela travessia de pitorescas vilas Russas, sempre com as suas casas de madeira de janelas pintadas impecavelmente pintadas de azul e branco (ah, o bom gosto não tem fronteiras!). O melhor dia de condução para celebrar o melhor Deuch desta viagem, isento de problemas e cheio de energia. Há anos que não me lembrava de passar os 100km com tanta regularidade.
Foi um rolar tranquilo e muito divertido até à cidade de Krasnaiarsk. Afinal, apenas mais um dos inesgotáveis encantos do Deuch: apenas ele para permitir apreciar verdadeiramente o simples facto de ele estar a... funcionar sem problemas. Uma vez mais citando o Hank Muddy (Californications, uma série a não perder), is the little things.
 

Dia 8 e 9 – Putos mimados

Os dois dias de estrada mais curtos até ao momento.

Acordámos tarde (estamos a voltar à nossa melhor forma no que toca a dormir na estrada) para um dia em que o vento nos iria pregar uma partida. Logo ao início da manhã, e quando tentava utilizar a neve para limpar o pára-brisas e poder filmar mais uns km de estrada, uma rajada de vento levou a porta, fazendo-a abrir de forma violenta. Quando a tentei fechar de novo, ela estava...demasiado curta. Por mais que tentasse, era impossível fechá-la, ficando sempre a faltar um par de cm. Por esta é que não esperava.

Impossível resolver o problema ali na estrada aberta e com o vento a continuar a fazer-se sentir de forma intensa. Conduzimos cerca de 10km com a porta segura pela minha mão até ao primeiro café com que nos cruzámos. Abrigados do vento e depois de muito puxar pela cabeça (mas como é que a porta poderia ter perdido 2 cm?!), lá consegui resolver o mistério: os dois ferros onde a porta corre tinham sido esticados no sentido errado. Solução: agarrar-me à porta e com a ajuda do pé puxá-la de novo no sentido correcto. Na resolução dos problemas do Deuch a simplicidade é quase sempre a chave. Ficaram algumas mazelas, a corrente de ar é agora (ainda) maior, mas nada de grave. Em compensação, desde a nossa última ida ao mecânico, o motor está a fornecer muito mais calor para o habitáculo. Pelo menos durante os períodos de condução, o nosso pequeno cubo de gelo derrete e já conseguimos ver através de todas as janelas. Era de facto um crime estar a atravessar a Sibéria com uma visibilidade tão reduzida.

Logo que a noite caiu, cruzamos o centro de uma pequena cidade (ou grande vila, como prefiram). Ao passar por uma hospedaria, deixei-me seduzir pela ideia de um banho quente, uma boa noite de sono numa cama confortável e relaxar com umas cervejas na mão e a estrada ficou por ali.

A nossa night out improvisada no campo veio sublinhar algo que este primeiros dias de Rússia profunda já tinham deixado evidente: a diferença entre o estilo de vida das grandes e médias cidade Russas e o da Rússia rural. Uma das mais marcantes é que de facto pelo menos alguns Russia não defraudam as expectativas no que toca à bebida. Mesmo durante o dia, é comum vermos homens já bastante trôpegos, qualquer interacção com um estrangeiro é desculpa para mais uma vodka e quando cai a noite encontrar alguém sóbrio num café é missão quase impossível. Em Ekaterinburgo sempre me disseram que vodka e cerveja não combinam (nada que eu já não tivesse descoberto por mim próprio no meu primeiro jantar em casa do Slava...ou melhor, na manha seguinte). Pois aqui o lema é vodka sem cerveja é um desperdício e estou a citar.

Com a bebida, os comportamentos e sobretudo os temperamentos alteram-se. Percebe-se o porquê de os Russos terem fama de violentos, uma vez que se torna evidente que com facilidade nos podemos ver numa confratação física. Mas a verdade é que com um pouco de calma e bem senso podemos quase sempre ultrapassar essas situações e, não raras vezes, utiliza-las mesmo a nosso favor. Há um par de regras básicas a seguir: manter a calma, nunca fazer contacto olhos nos olhos de modo continuado, não ter um ar de desafio ou gozo e fazer um esforço por cortar todos os momentos de silêncio desconfortável. Se nada melhor vos passar pela cabeça, a vodka é um valor seguro. Aliás, essa é provavelmente a regra de ouro: utilizar a bebida a nosso favor. Pouco ou nada será mais apelativo para um Russo que beber uma vodka. Por experiência própria, posso dizer que não raras vezes russos hostis e com aparente vontade de nos dar uns sopapos podem com alguma facilidade serem transformados em excelentes companheiros de copos. Uma coisa é certa, por mais inacreditavel que possa paracer: a abstinência é mais vezes fonte de problemas do que solução.
O dia seguinte foi mais um dia de preguiça. Uma manhã passada na cama, um tardio acordar para a estrada e um forte nevão fizeram que percorressemos pouco mais de 100km. Ainda assim, oportunidade para a hospitalidade russa nos demonstrar que nunca perde o poder de nos surpreender. Primeiro, e depois de nos guiar até ao único café aberto toda a noite, um habitante da pequena vila onde pernoitámos (de volta ao Deuch) voltou para trás para perguntar se precisava de dinheiro para comer qualquer coisa. Uma hora mais tarde e enquanto escrevia este texto no referido café, um russo entra com a nossa câmara de filmar e respectivo carregador em punho. Demorei alguns minutos a perceber a situação: havíamos primeiro parado num outro café na vila anterior, a cerca de 25km de distância. Vendo-me preparado para ali passar a noite, o segurança de serviço (há sempre um segurança em cada negócio Russo) disse-me que não o poderia fazer ali, mas que 25km adiante tinha um ponto de encontro de camionistas onde não haveria problema. Ora, ao ver que me havia esquecido da câmara de filmar, a carregar atrás do balcão e pressupondo que eu tinha seguido a indicação do segurança, o dono do primeiro café fez-se à estrada e veio-me entregá-la pessoalmente. Raras são as vezes em que algo pode superar a minha cabeça no ar. Mas sem dúvida que a simpatia deste acto a bateu aos pontos.

Dia 10 e 11 – Irkutsk

Um longo dia de condução até Irkutsk, habitual base de ataque para quem visita o Lago Baikal. Chegámos já bastante tarde ao hostel, onde não tínhamos marcação e acordámos a responsável já em pleno sono. Por essa razão, acabei por não ter coragem de voltar a sair e descobrir como é a cidade a um sábado à noite. Tinha já estado duas vezes em Irkutsk, mas sempre de fugida para conseguir visto para a Mongólia e sempre a 24 horas de o meu visto Russo expirar. Mais uma vez, um das minhas vertentes de viagem preferidas, o explorar da vida nocturna, ficava adiado para outras núpcias.

Foi uma estadia sem grande história, prolongada por duas noites a fim de tentar ver o Porto-Benfica (acabei por apenas conseguir ouvir o relato e aos soluços...que saudades de ver um jogo do meu Porto...) e aproveitado para retemperar forças. Mas inevitavelmente, uma história curiosa: na primeira manhã, a responsável pelo Hostel disse-me que era um risco muito grande deixar um carro que chama tanto à atenção estacionado na rua. Alguém o podia assaltar, pelo que seria aconselhável colocá-lo numa garagem vigiada. Pois bem, quando o fui levar à tal garagem, encontrei para meu espanto uma garrafa de vodka (cheia, entenda-se) pousada no capot, juntamente com um cartão a desejar boa sorte para o resto da viagem.

Ah, para além de ter partilhado camarata com um idoso alemão com um crónico problema de gases... durante a noite não sabia se havia de rir ou chorar.

Escrito por: tma & Le Deuch, 11:51:15 | Comentários(4)
Sexta, 06-MARÇO-2009
Breve status quo

Caros companheiros de viagem,

Depois de sobreviver o pico do Inverno na Sibéria, por ironia acabei por adoecer nos primeiros dias da Primavera Russa. Fica explicada o porquê do Deuch ter estado tão sossegado nos últimos dias. Já agora, sabiam que no Norte do Globo as estações do ano começam no dia 1 e não no dia 22 como em Portugal?

Depois de um simpático fim-de-semana a festejar o meu re-encontro com o Omar, o meu companheiro de Olkhon, apanhei uma gripe sendo obrigado a ficar de cama de Segunda até ontem. Não fazia parte dos meus planos passar o meu aniversário de cama. Mas de que é que me posso eu queixar? Afinal de contas, haverá maneira mais emocionante de celebrar um aniversário que a lutar pela concretização de um dos sonhos de uma vida?

Acordei esta manhã já sem febre e sentindo-me bem melhor. Por outras palavras, tempo de voltar à estrada e iniciar a última etapa do caminho até à principal referência física do nosso projecto: o oceano Pacífico. São ainda cerca de 4.000 os km que nos separam de Vladivostok. Mas depois de tudo pelo que já passamos e dos muitos km já deixados para trás, parece que é já ali!

Rumo ao Oriente!

Escrito por: tma & Le Deuch, 06:19:39 | Comentários(14)
Saturday, 28-FEVEREIRO-2009
Diários de uma aventura pela Sibéria

Ilha de Olkhon, 26 de Fevereiro de 2009

Nesta aventura, afirmações destas têm obrigatoriamente de vir com o respectivo disclaimer escrito pelas 1001 peripécias já vividas: salvo algum (novo) imprevisto de última hora, amanha dizemos até já à ilha de Olkhon e voltamos à estrada.

Para despedida do lago, temos ainda uma travessia de volta ao continente e um contorno da margem do Baikal que nos ocupará praticamente todo o dia. Destino, o mesmo de sempre: Vladivostok! Uma vez mais, salvo imprevistos (acho que já os devíamos chamar previstos), sem outras paragens que não as técnicas.

Uma vez mais, a nossa estadia voltou a esticar-se, esticar-se, esticar-se... Mas tanto eu como o Deuch não conseguimos resistir aos encantos deste local mágico, onde o bater do segundo parece ter todo um outro ritmo. Cheguei como turísta e parto como voluntário, depois de 10 dias a agradecer a cama, belíssima comída e, sobretudo, a simpatia de todos fazendo um pouco de tudo. Lavar pratos, servir à mesa, transportar água ou madeira, dar aulas de Português e Inglês: a cada dia uma nova combinação entre a necessidade do campo e as minhas capacidades. Sendo que todos os dias a necessidade maior dos responsáveis pelo campo era invariávelmente o meu bem estar. Nikita´s Home Stay, o mais recente responsável pela perda de mais um bom pedaço do meu coração.

Mas para além da irresistivel atmosfera e da simpatia de todos os que aqui trabalham e, por contágio, de todos que por aqui passam, o cenário é único. O mais profundo lago do Mundo, reservatório de 1/5 de toda a àgua doce do Mundo, completamente gelado, convidando o Deuch a deliciosas viagens sobre as suas águas, com as montanhas que o envolvem como pano de fundo. A cada paragem, a reconfortante conclusão de que por mais que ele nos maravilhe, o Mundo terá sempre uma interminável capacidade de nos surpreender.

Enquanto mergulhamos novamente no extremo oriente, deixamos post suficiente para vos entreter nos próximos dias. Aqui fica o nosso diário de bordo dos nossos primeiros 5 dias de estrada. Fica a prescrição / sugestão de um ao dia.

Voltamos a ver-nos nas margens do Pacífico,

Tma & Le Deuch

Dia 1 – A (quase falsa) Partida

Depois de mais de 5 meses à espera que o Deuch fosse reparado, cá estamos nós finalmente prontos a regressar novamente à estrada. Finalmente! Uma última refeição com o Slava (amigo, acabar com uma refeição 100% alcohol free? Temos de repetir isto), jantar com os meus dois últimos anfitriões (Roman e Tovi, vou sentir falta da camaradagem), um simpático pequeno-almoço, voltar a colocar todas as minhas (cada vez mais) coisas no Deuch e estamos por fim prontos a partir. Ou assim pensava eu.

O Pequenino não podia deixar Eka sem pregar uma última partida. Um carro normal fica sem travões. O Deuch fica com travões. Demasiados. A cada 10 minutos de condução, os travões bloqueavam, sendo impossível mover um centímetro que fosse. Este problema tinha já surgido um par de vezes, sempre esporádicas e ultrapassadas com aquele que é normamente o mais eficaz dos remédios: a paciência. Esperamos algum tempo e, puf, como que por magia o problema desaparece. Todavia, hoje a paciência acabou primeiro que o problema.

Uma enorme dor de cabeça em perspectiva? Não quando podemos contar com o appeal do Deuch. Uma chamada para o Sr. Magalhães (acho que o nosos mecânico já dispensa apresentações por esta altura) descrevendo os sintomas foi o suficiente para termos um diagnóstico de imediato: precisavamos de mudar o oleo dos travões ou então a própria bolmba dos travões. No primeiro cenário, a dificuldade seria apenas encontrar o concessionário citroen mais próximo (bastante fácil, uma vez que ainda estavamos na minha Ekaterinburgo), pois só lá poderiamos encotrar o óleo específico de que necessitavamos. Já o segundo ameaçava transportar-nos de novo para um processo de 5 meses em tudo similar ao que acabaramos de concluir.

Tempo de nos dirigir para a Citroen local e deixar o Deuch ser ele próprio. Quase de imediato tínhamos toda a equipa da Citroen em volta to pequenino, fazendo tudo ao seu alcance para resolver o problema. O óleo foi mudado, os travões verificados e testados um por um e tudo parecia estar a funcionar na perfeição. Felizmente, tudo indicava estarmos perante o primeiro dos cenários, ou seja, estavamos prontos a arrancar. Mas não sem antes sermos levados até uma mesa farta de comida e (estamos na Rússia, não poderia ser de outro modo) bebida e convidados a celebrar o aniversário de um dos mecânicos. Serviço para além de completo, tudo pelo módico preço de um litro de óleo dos travões, 350 Rublos (cerca de € 7,50 por estes dias).

Partir de Eka bem cedo, depois de uma boa e longa noite de sono: era este o nosso plano de partida. Pois bem, nesta nossa viagem os nossos planos funcinam como os prazos para conclusão de obras públicas em Portugal: a única certeza é que todos os cenários estão em aberto, menos o planeado.

Passava ja das 8 da noite quando deixamos por fim Ekaterinburgo. Era impóssível saber o quão atrasados partíamos, pois há muito que haviamos perdido o ponto de referência no lado oposto desta comparação. Mas por mais evidente que o nosso atraso se tinha tornado, inevitável a sensação e que partíamos demasiado cedo...

Day 2 – A Sibéria envia o seu primeiro aviso

No nosso primeiro dia (melhor, noite) de estrada os km não foram muitos. 150 bastaram para que fossemos derrotados, primeiro pela fome e depois pelo irresistível conforto do quentinho. Afinal de contas, e ainda que à nossa maneira, tínhamos tido um dia bastante longo.

O plano passou então a uma longa noite de sono no conforto do calor para retemperar energias para um segundo dia de muita estrada. Por isso, já sabem o que não aconteceu. Hoje foi o dia mais frio deste inverno até ao momento, com a temperatura nunca acima dos -25º. Por essa razão, depois de uma noite passada ao relento o Deuch ficou com o seu motor literalmente congelado. Ainda que os sintomas fossem similares à falta de bateria, esta funcionava na perfeição e óleo que tinhamos na lata que sempre trazemos na mala dava-nos uma preciosa dica: se o da lata estava congelado, também o do motor deveria estar. Mesmo ainda à distância, a Sibéria envia-nos o um primeiro aviso.

Tempo de experimentar uma terapeutica inovadora: o calor. Tínhamos de encontrar um local quente onde fosse possível mimar o Pequenino por algumas horas. Algo que não fora a hospitalidade Russa poderia revelar-se complicado. Viktor, um amante de mergulho e especialista em comunicação via rádio local veio de imediato em nosso auxílio. Via radio (claro está) entrou em contacto com uns amigos da Protecção Civil local e em menos de meia-hora tínhamos à nossa disposição uma ambulância para nos rebocar. Não é brincadeira, uma ambulância mesmo. Infelizmente, o frio fez também outras vítimas: as baterias de todos os nossos gadgets ficaram descarregadas, pelo que foi impossível guardar para memória visual futura mais este momento singular.

Havia ainda que encontrar o local onde deixar o Pequenino tirar umas horas de sono. Uma vez mais, a solução estava mesmo ali ao lado: o dono da Estalagem onde tínhamos passado a noite foi amável ao ponto de colocar o seu próprio citroen da garagem para deixar o nosso heroi lá passar a noite.

Quando não há estrada, há sempre uma cidade para conhecer. Neste caso, uma vila. Dado o avançar da hora e da semana, tempo para explorar a vida nocturna de Komeshlovo: umas quantas vodkas no Téte-à-Téte, bar/discoteca local depois de uma belo jantar caseiro oferecido pelo Viktor e a sua namorada. Tanto quanto me consigo lembrar, foi uma noite muito bem passada.

Dia 3 e 4 – Simplesmente… Sibéria!

Podemos não nos lembrar de toda a noite passada. Mas a ressaca desta manha será dificil de esquecer. Com o Deuch no quentinho e o pessoal da estalagem sem nos pressionar para abandonar o quarto, uma vez mais partimos já depois do pôr-do-sol.

Mas depois de duas noites seguidas a dormir mais de 10 horas (não me consigo lembrar da última vez que o tinha feito) e com o Pequenino saido de um verdadeiro spa, estavo sequiosos de estrada! Depois de duas quase falsas-partidas, mal podíamos imaginar o rebuçado que tinhamos pela frente. Este dia (ou melhor, estes dias) foi o nosso primeiro verdadeiro dia de estrada em praticamente meio-ano. Que doce este rebuçado! Logo a abrir, o cruzar de mais uma barreira psicológica e logo que barreira: 15.000 km e muitos meses depois da partida, chegamos à Sibéria.

Entramos na majestosa e assustadora Sibéria como o deveríamos fazer num dos locais mais negros e mitificados do nosso imaginário: noite cerrada, um forte nevão, praticamente sem nos cruzarmos com vivalma e um frio como nunca antes haviamos sentido. Para celebrar a nossa primeira noite em branco desde Ekaterinburgo, um dos amanheceres mais mágicos das nossas vidas. Num passe de mágica, somos transportados de um para o outro extremo do espectro cromático. Num repente, o mais escuro dos negros reinventa-se numa manhã em que o brilhar do sol é o único elemeno a destoar num cenário por completo vestido de brando. Lindo, lindo, lindo!

Fria, negra, sombria, assustadora até, mas também capaz de um branco radiante, no qual a sua imensidão e isolamento nos trazem uma surpreendente paz de espírito e sensação de desprendimento, liberdade: em menos de 12 horas eis que nos são dadas a conhecer as duas facetas do 6º Oceano, o Siberiano. Porque a sua imponência apenas é comparável à do próprio mar: imensa e de uma força incontrolável; uma face assustadora que impõe não medo, mas profundo respeito; capaz de constantemente se reinventar sem nunca perder a sua identidade; e, por todas estas e muitas outras razões, senhora de uma atracção muito para lá o resistível.

Nestes dois dias conduzimos até Omsk, passando também por Tiumen. Infelizmente, tivemos apenas tempo para um breve drive through por cada uma das duas cidades. Ainda assim, o suficiente para nos apercebermos do inesperado charme de ambas. Não deixa de ser curioso como a deportação em massa de intelectuais e membros das mais ilustres famílias Russas durante o reinado dos Czares acabou por moldar no extremo oriente algumas das mais ocidentais cidades da Rússia.

Estes dois dias foram plenos de curiosidades. Desde logo, o regresso a um velho hábito, ainda que num contexto bem mais hostil. A finalizar a longa maratona, paragem numa pequena estação de serviço (qualquer semelhança com uma estação de serviço tal como as conhecemos é a mais pura das coincidências) e fazemos a cama mesmo ali. Tal e qual como fizemos inumeras vezes nas nossas caminhadas de verão. Apenas que desta vez, debaixo de uns nada simpáticos -28º e com o Deuch completamte gelado.
 

Curiosidades de um belíssimo dia de estrada:

Mas o frio está agora transformado em bem mais do que um mero desconforto. Ele é agora mais um relevante risco com o qual passamos a conviver. Um risco que está já a redesenhar o nosso dia-a-dia. O Deuch está por estes dias transformado num autentico pequeno cubo de gelo com quatro rodas. Com a excepção do para-brisas, todas as restantes partes estão literalmente congeladas. Vidros, metais, capota, tudo é vítima da combinação entre a minha respiração e o ar gelado. Nem mesmo quando a prego a fundo o motor chega a atingir temperaturas relevantes, pelo que o calor que fornece para o habitáculo é nulo. Por essa razão, o campo de visão está limitado ao que nos vai surgindo pela frente. A cada cruzamento a única (e penosa) solução é abrir ambos os vidros. Fresquinho....

A consequência mais limitativa é todavia o facto de o motor (o óleo, ao que tudo indica) congelar quando fica mais de 2/3 horas sem trabalhar (dependendo do frio). Durante o dia temos apenas de estar um pouco mais atentos a súbitas quedas de temperatura durante as nossa paragens. Mas durante a noite o cenário é completamente diferente. O sono é agora interrompido a cada duas horas, entre as quais há que ligar o motor e deixa-lo trabalhar por uns minutos. Pelo menos, por ora dormir no Deuch passa a ser mais prático, por mais irónico que tal possa parecer.

E assim prossegue a aventura!

Dia 5º - Alguma monotonia para quebrar a diversão

Eis que ao quinto dia finalmente tudo corre bem. O 2cv a funcionar em pleno, as melhores estradas até ao momento e até o clima nos dá um dia de descanso. Por outras palavras, um dia cinzentão.

Tivemos um rolar tranquilo até Novosibirsk, a actual capital da Sibéria. A maior e mais emergente da região, esta é uma cidade moldade sobretudo pelo súbito crescimento económico das últimas décadas. Expressar a opinião sobre uma cidade após termos tido a oportunidade de a visitar apenas por um par de horas é uma situação sempre desconfortável. Mas sendo sinceros, não ficamos particularmente impressionados. Bastante animada, da fria segunda-feira, esta parece ser uma cidade bem mais interessante para se viver do que visitar.

Quanto nos preparavamos para sair de Novosibirsk, o problema nos travões atacou de novo. Por duas vezes consecutivas, o Deuch ficou de novo bloqueado, forçando uma espera de cerca de uma hora. A espera em si não teve nada de preocupante, mas o mesmo não se pode dizer do seu motivo. O regresso deste problema parece indicar que o problema está na bomba dos travões, não no óleo. Ou seja, o tal segundo cenário de que falávamos há alguns dias volta a ser uma possibilidade real. Vamos ver por quanto tempo conseguimos adiar o problema.

Uma vez mais, o frio voltou a ser o nosso maior desafio. Sobretudo durante a noite. Pela primeira vez, enfrentamos temperaturas abaixo dos -30º graus, algo de verdadeiramente inimaginável nas nossas vidas apenas até há uns meses atrás. Voltamos a parar numa estação de serviço uns bons kms depois de Novosibirsk. Finalmente, uma oportunidade para um verdadeiro teste ao nosso saco-cama glaciar. Deitei-me apenas com os meus boxers e t-shirt, literalmente encafuado dentro do saco-cama. Vamos ver como passa a noite.
Escrito por: tma & Le Deuch, 11:30:53 | Comentários(10)
Sexta, 13-FEVEREIRO-2009
Sinal de Vida
Hoje fica um breve "sinal de vida". Como tem podido acompanhar pelo mapa GPSR no final da primeira pagina, a nossa viagem pela Siberia corre a todo o vapor. Nao isenta de precalcos e (nunca!) de muitas aventuras, este esta a ser o maior desafio na estrada que alguma vez enfrentamos. Por essa mesma razao, o mais fantastico e aliciante das nossas vidas. A cada km rumo ao este a realidade torna-se mais inospita e isolada. O acesso a internet tornou-se um luxo de raro acesso, sobretudo a uma ligacao que nos permita colocar online os post, fotos e videos que temos ja preparados no computador e que poderao desvendar um pouco do fascinio em que esta transformada a nossa aventura. Mas so mesmo um pouco. Porque ha coisas que podem apenas ser vividas. Saudacoes geladas pelos -30 graus, tma & Le Deuch P.S - as nossa desculpas pelo Portugues (ou melhos, a sua ausencia). Vicissitudes do teclado russo e do curtisso acesso a internet
Escrito por: tma & Le Deuch, 04:27:22 | Comentários(5)
Sexta, 30-JANEIRO-2009
Пока, пока Ека!

Indeed, even the endless experiences do come to an end. The planed one night turned into a 5 months stay, which turned into the biggest challenge of our journey, later turn into the most difficult moment since we first left Porto. Eka is at last (but definitely not least) left behind.

I believe I have written about this here before: I do believe there is a fundamental decision with a fundamental implication in one’s life: to be happy or to avoid unhappiness. This not being the place nor the time to jump into such a philosophic discussion, I can break it down simply into how much one is willing to risk to achieve happiness. From the little I have managed to figure out so far, one can only be as happy as willing to assume the risk of ending up in the very opposite side of the emotional span. The higher you climb…

Quite often, the first step towards happiness is to set yourself free of what I like to call our places of comfort. In love, like in life, for example: there is no other feeling like being heads over hills with some one, that very moment when passion and love are indistinct. That feeling’s kick is greatly enhanced by the abyss we are always overlooking at the very same time. One way or the other, I believe we all learnt by now that those we love the most are exactly those with the greater power to hurt us. So suddenly, we start loosing the comfort of the ground beneath our feet and with it we star loosing control. What the heck: if nothing comes easy in life, why would its ultimate goal?

My trip is all about that: trying to do what makes me the happiest by now. Setting sale from my places of comfort, in particular from my most comfortable harbour being the first step. The second doing it alone. Nevertheless, there is a fundamental contradiction in my way of travelling, one which is so clearly exposed by the Ekaterinburgs of my life. When I am travelling, no matter how much time I will spend in a particular place, I do not tend to pass by, but always do my best to stay. Some times for 5 hours, others for 5 months. Is not only a matter of seizing the day and not focusing on the future. Is to accept you don’t either know or control the tomorrow, thus nor its timings. In other words, to try to go through life as if all the people and places we come across with come without expiration date. To be honest, at least in my imaginarium those meaningful never have one.

Hence, the fundamental contradiction: to search for the new, suck all the thrill out and turn it into a new place of comfort. And so the dance continues… Many of you are probably thinking this is just the combination of an adventurous spirit, youth, & naivety. Well, I hope you are right. I am far from complaining for the time being. Though this nomadic spirit on someone so attached to places and people as I am comes together in the most thrilling, but as well a highly emotionally exhaustive lifestyle. For as big as my heart may be, it is for sure not big enough to keep on going around indefinitely leaving little pieces of it behind.

In Eka it wasn’t even a little piece, but a big chunk. It had everything to be the black hole of our trip: an ordinary looking Russian city, a torrid summer heat, no water to be found and the Deuch deciding to take a rest. I must confess, I hated the city for the first 10 days. But as I have predicted at the beginning of this apparent nightmare to be, the Deuch, as always, knew what he was doing. He wanted to test our travelling philosophy to the extreme. A forced stay in a far, faraway city which we had no clue about, in which we knew absolutely no one and where the only language spoken by the vast majority of its population was unknown to us: not exactly the most comfortable of the scenarios.

But Ekaterinburg was doomed to be the confirmation of many of our theories. As we have as well written at the same post, nothing is what it is, but what we make out of it. Looking back, we believe we could have hardly made more out of it. Specially because the city and, above all, the many, many friends we now have there could hardly have made more to turn Eka into one of the most comfortable of all my places.

We won’t even make an attempt to as well here thank one by one all those who definitely would deserve it. Gladly, we had the pleasure of doing it personally to all of you. Either during my last couple of days there or during my amazing farewell party (Kvartire, 2ky, Dabar and then… Dabar again till we were all kicked out at 9 am J ). Anyway, no matter how many times I repeat the word Спосиво, we will always remain in debt.

Besides the theories, Eka seems as well to confirm our contradiction and biggest emotional threat: when it gets too cosy, we do know it is time to hit the road again. Novelty is fading. We know we should, because our experience taught us something along the way will justify it. But that something is, even if highly appealing, yet just a promise to take place and form. A promise which demands us to set sail from a place in which we fell just like home.

We know we are terrible at it, but indeed never any gain from making goodbyes long. So, let us cut it short (well, cut it not as long, better saying…). Over the past 5 months we kept on calling Eka our Russian adoptive city. Well, don’t know if it goes both ways or not. But we do know it goes at least one. We may have parted (for now), but the city will never leave us: we did adopt Ekaterinburg with all our heart!

Пока, пока!!!
 
P.S. - an insight on my farewell party (gracas a deus, imagens apenas da parte em que ainda estavamos todos filmaveis lol)
 
Escrito por: tma & Le Deuch, 04:51:11 | Comentários(7)
Quinta, 29-JANEIRO-2009
O(s) regresso(s) a Casa
Uma vez mais o tempo (mais propriamente a falta dele) obriga-nos a escrever numa so lingua. Pelas razoes ja anteriormente apresentadas, a nossa opcao cai sobre a mais universa das duas habitualmente utilizadas: o Ingles.
 
O nosso oberigado pela vossa compreensao.
 
 
 
After a lovely Christmas break in Porto, here I am back in Ekaterinburg, back in the freezing cold though quite amusing Russian winter. The setting may remain the same for the time being, but as you already know, 2009 opened in full speed!

There’s a lot to catch up. So, let’s take it step by step.

 

The Christmas Tale Epilogue(s)

I flew to Porto with the highest expectations: after all, I was on the brink of having the best Christmas ever. On top of that, almost 8 months afterwards after having left home, the perspective of seeing my family, my friends, and my little doggy sounded quite a treat. Big expectations often lead to proportional disillusions. But not when you have my 3 Marys on the case.

 
This was indeed a magic Christmas, only a snow fall away from perfection (yes, I still keep my childhood dream of a white Christmas). After 6 years, to be back at my Family’s house at the eve of the 24th with the Moreira family all gathered around the table was a feeling it can not be described, but only shared with those other 11 people who were around me. I was expecting something of extraordinary, of very, very special. However, I ended up overwhelmed by the very opposite: how natural and comfortable everything was. Like that gap of over half a decade had never existed. The expression was never more fitting: it felt just like home!

My grand-father’s eyes would again shine of pure happiness and that was the best present my E-Santa (quite modern of our Klaus to take request over the internet these days) could have ever given me!

Following the tradition of the Russian Literature Classics, our Tale did not only have one, but two Epilogues. One week later, the family got together again to celebrate the New Year. This time around at my Parents place. In case doubts were left (not really, but in that hypothetical event), the matter was settled.

This was indeed the best Christmas ever!

 

The return(s) home: Porto

Gladly, to return to Porto was much more than simply about having the Best Christmas ever. This had been the longest consecutive period I have ever been away from home. This 8 months coinciding with the period of my life in which I have lived it the fullest, not hard to imagine how eager I was to spend some quality time with those closer to me.

I was once again overwhelmed, this time with the impact of returning to Porto. At all levels

First of all, to return to my most comfortable shelf. After such a long time almost always dealing with the new, this feeling of home felt particularly cosy. The people, the climate, the sights, the food, my bed, to understand everything which is being said around me. As one of my favourite TV characters, Hank Muddy (Californication, one of the wildest TV series ever released) uses to say: "it’s the little things".

Inevitably, it was however pretty much about the people, my people. The much needed catching up, to spend some quality time with many of my very best friends and, above all, to have these people back in one other type of my places of comfort: my inner self. At last, a handful of opportunities not just to tell and be told stories, not just to share experiences, nor just trying to be discovered by and discover the one(s) seated in front of me. At last, a handful of opportunities in which the level of intimacy shared and the deep knowledge on one another’s inner-self allowed a first real deconstruction of all the many new and overwhelming experiences I have lived since the beginning of our journey. Together with the return to our starting point, a first chance to assess and evaluate the long inner path already travelled. Rare, hence always priceless moments.

Reassuring is another adjective which can describe this homecoming. Every time I return, the feeling grows stronger and stronger on me: no matter what twists and turns my life takes, Porto will always be the safest of all my Harbours. To me, travelling is, in great extent, to conquer the places I visit, to turn a dot in the map into a reality in my imaginarium. I don’t remember any place I have ever visited which did not stay, at least in some extent, within me (or in which I have left at least a bit of me, but there we are back to the same question of a couple of posts ago). Some of them (Istanbul, Brussels, Ekaterinburg being the most relevant) even grew solid foundations. But no other place set such ground foundations as the one which made ground for all the others: my Porto.

The cosiest of all my places of comfort. The kindest during the inevitable grieving process after each return and that which more clearly allows me to, afterwards, acknowledge how closer I am to become myself. The place I know it won’t ever cease to be mine and where my absence, even if only a small drop in the ocean, has nevertheless the strongest impact. But on the other hand, and as every true home, a place in which the novelty is scarce and where the context’s power to influence my day-to-day self is the strongest. No matter how de-attached, how context free I may have returned, it was obvious it was only a matter of when, not if, Porto would force me back into a life pretty similar to the one I just left. Not saying it was one I disliked, nor one I will never be willing to go back to. Just not for now.

In short, to be back in Porto made it very clear to my eyes the reasons why I will always be eager to return, but at the same time the reasons which lead to my current nomadic lifestyle.

Some final few lines on something closely related to everything I have written above, but which has particularly stroked me this time around: the personal ties. Short, but full of emotions, this visit made me realise when one overcomes its inner tabus, the circle of certain personal relations can travel over 360є without yet being closed. Indeed, there are Tattoos which will never be removed.

And when the last are the first: the particular strength of the blood. Far from being a surprise, a reassurance at most. With all the away time elapsed and the thrill of family emotions lived in the past weeks, one tie emerged as stronger than any other: the one with my brother Luis. No need to be too long about it. Because no matter what life brought or will bring us, we both know this was, is and will always be the tie none of us will ever accept to break. No matter what!

 

The Return(s) Home: Eka

My return to Ekaterinburg suffered a delay according to our original plans. Thanks to the contacts Slava had managed to make at the Russian Customs, the perspective of soon having our new parts cleared was at last realistic, the same being true to our return to the road. Being still 8000km away from Vladivostok and having Siberia in the pick of the winter in between, it became impossible to draw a timetable to finish the Russian stage of our journey. Hence, it became essential to return with a Visa longer than the standard 1 month tourism one, which made the visa procedure in Lisbon a bit longer. It is one thing to make a visa migration while settled in Ekaterinburg. To do it while somewhere in the middle of Siberia is a whole different story

With a 3 months business visa in my hand, I have arrived in Ekaterinburg on the 9th of January, not in time of celebrating the New Years Eve here as initially planned. But still in time to add a new landmark (and the respective celebration excuse) to our calendar: the Old New Year. More accurately, the New Year according to the Julian Calendar, the one used by the Orthodox Church. And what a party it was. At least for the part we can remember, right Tobi?

To leave Porto to return to Eka was just like leaving home to return…home. I have arrived around 4 am, having left Portugal in alarm due to the lowest temperatures in years to be welcomed with -17є upon arrival. Nothing preventing me from taking the train (well, the elektrichka, kind of a Russian suburban train) plus a 20 minutes walk from the train-station, while always greeting back the city with an open smile. It took only a couple of hours to get back to my Eka rhythm. Arriving on the weekend still during the holidays was quite a help and the dinner at Slava’s did the rest.

Upon arrival as well, the news we were for so long waiting: our parts had finally arrived and were waiting for my visit to be cleared at the Ekaterinburg’s customs. Even after more than half a year in the country I was as naïve as to believe a simple visit would do it. But of course, nothing comes easy in Russia, specially when you are to deal with public administration. Misha (I guess no one him will be more relived with my departure lol), the Director of the Yuma Auto Service (my mechanic shop) and I were up to two days which we could only imagined as out of a play written by Kafka. How many of my passport copies and signatures do the Russian Federal Authorities need out of me?! Just to give you an idea, and while killing a considerable number of trees with all the paper spent in the process, a short resume:

Day 0: the parts are delivered by post to the mechanic shop, with an enigmatic paper from the customs; it takes half a day of phone calls for the Director to finally be informed he would incur in a considerable penalty if he opened it. So, the box is checked by the customs in Moscow (let’s not even having in consideration the time that process took…), is finally delivered but we can’t open it…

Day 1: we arrive early morning to the customs with the parts in our hand; we leave the customs late afternoon having no longer the parts with us… They were retained as soon as we arrived and whole day of running from one office to the other, all in different parts of the city, is not enough to have all the procedures is done. Kafka would start to blush now;

Day 2: half a day, God knows how many signatures and killed trees afterwards, we finally have the clearance to go back to the starting point and pick up… what has been delivered to us two days ago and we had just brought in the day before…

You don’t understand a thing? Don’t worry, I was there and still couldn’t quite figure the logic out myself. But as always, there is a bright side. The whole situation is as illogical as surreal, hence as annoying as it can, at times, be delightful. Plus, is on times of need that a foreign has the opportunity of experience the true Russian hospitality and kindness. I have less and less doubts on saying that for the majority of the times, life gets way easier for a foreign around here.

Great news followed the good ones: two days afterwards My Little White One was fit and we were back on the roads. God, how I missed to be back on that magic wheel!

Once again defying all local opinions, and even if sometimes with a bit of struggle, the Deuch is, at least for the time being, cooping fine with the cold weather. So far, the temperature has been rather mild for the local winter standards (an average of -7є/8є, never bellow -17є. But so far so good!

The Return(s) Home: the road!

At last, we address the question in everyone’s mind: we are returning to the road today, Thursday, the 29th of January. Even though leaving Eka is proving to be a heartbreaking experience, the road is still for the time being our (the Deuch and mine’s) natural habitat.

So, what’s the plan? Well, I know this is not the first time I have told you this, but I do believe this time it is for real: the adventure is starting now! Again, against all local opinions, our plan is to resume our journey heading east. First and most important stage, to link Eka to Vladivostok, with a pit stop at the Lake Baikal. About 7.000 km to finish one of my dreams since childhood: to link the Atlantic and the Pacific coasts by road. An old plan with a new key challenge: to cross Siberia when Siberia shows its true and more notorious self - the peak of the winter!

As I have mentioned, the season has been rather mild so far, but the experts are announcing a sharp fall on the thermometer starting today. The expected temperatures for this weekend are around -35є. If after more than 5 months away from the road we would be in need of extra motivation to set sail once again, the present conditions and the disbelief of all locals in our enterprise would be it!

But don’t worry too much: we have not (at least) yet lost sense of reality. We have packed warm and already made some try outs on the road under the cold winter and the deep snow. Besides, we will keep ourselves to Russian’s main road connecting Moscow and the Far East. Even if far from the being the region of the World with the highest population density, we will stick to the Russian’s main lifeline. If things get extreme, there is always Vodka to keep us warm. Plus, even if my friend Agnes (an modern art performer with the most original working method and some of the most mind teasing pieces of art I have ever come across – check Agne’s work at www.ffur.de) ruined my metaphor with her ice digging work in the country, I am still standing to my example: to visit Siberia outside winter it would be like going to Brazil to ski. So, our timing couldn’t be better. After all, our chance of making this the coolest roadtrip ever!

Time to pack and hit the road again! We will do our best to keep in touch, even if internet access will again become a big question mark from now on. Anyway, as long as the dot in the GPSR map keeps on moving, we should be on the safe side.

A warm hug from the cold,

Tma & Le Deuch

Escrito por: tma & Le Deuch, 11:52:52 | Comentários(6)
Saturday, 24-JANEIRO-2009
Para o meu melhor amigo
Uma breve nota para deixar uma mensagem para a pessoa a quem devo praticamente tudo.
 
Para o meu pai, para o meu melhor amigo, um beijo do tamanho da distancia fisica que nos separa, com os votos de um excelente aniversario!
 
Parabens, pai!
Escrito por: Anónimo, 04:28:34 | Comentários(1)
Segunda, 19-JANEIRO-2009
Os regressos: ao ar, a Eka e...à estrada!

Caros amigos,

Não posso começar o nosso primeiro post deste ano que não desejando a todos um fantástico 2009!

Como puderam reparar, o nosso blog esteve inacessível durante alguns dias. Tal ficou-se a dever a um novo ataque de spam, o mais forte que sofremos desde que lançamos este website. O problema foi já parcialmente resolvido, o que nos permite colocar de novo o nosso diário online. Todavia, poderá por vezes não ser possível deixar comentários aos nossos textos. Iremos continuar a fazer o nosso melhor para ultrapassar por completo esta situação. Entretanto, caso o problema persista, pedimos que utilizem o nosso guestbook (http://www.2cvportobeijing.com/nm_quemsomos2.php?id=1323) para nos deixar as vossas mensagens.

Entretanto, 2009 não permaneceu parado no tempo. Depois de uma doce visita a casa, estamos de volta à nossa Ekaterinburgo, sendo que a segunda pessoa do plural volta ao seu termo literal: como já puderam concluir pelo movimento no mapa GPSR da nossa primeira pagina e por algumas fotos enviadas para o guestbook, o meu Pequeno Floco de Neve está de volta à estrada!!! Não podem imaginar a sensação de voltar ao comando deste volante mágico!

Mas deixo todos os pormenores para um post que será colocado no ar muito em breve. Afinal de contas, entre o epílogo do nosso Conto de Natal e o nosso regresso à estrada, as primeiras duas semanas de 2009 já nos deram muito, muito que contar!

Пока,

Tma & o Deuch (como já sentia falta da companhia do Meu Pequenino aqui ao meu lado)

Escrito por: tma&Le Deuch, 03:25:54 | Comentários(2)
Domingo, 21-DEZEMBRO-2008
O veredito das minhas 3 Mães-Natal

Nem um formulário para preencher, menos de 20 segundos no controlo do passaport e, finalmente, volto a perceber cada palavra que é dita em meu redor.

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È verdade, estou a caminho de casa! Escrevo-vos desde Barajas, o aeroporto de Madrid, onde amamha de manha apanho novo avião para Lisboa. Depois fico a uma curta viagem de comboio de 3 horas (como é estranho voltar a medir uma viagem de comboio em horas e não dias...) do Porto.

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Aparentemente, o Natal continua a guardar aquela sua magia capaz de transformar os sonhos de um míudo (mesmo que mais barbudo que o próprio Pai Natal) em realidade. O melhor Natal de sempre já está no meu sapatinho!

Escrito por: tma & Le Deuch, 11:54:31 | Comentários(5)
Quarta, 10-DEZEMBRO-2008
A minha carta às Mães Natal

Uma pergunta tem estado na boca de toda a gente ao longo das últimas semanas: e então o Natal?

No meio deste enorme ponto de interrogação em que se transformou esta nossa fantástica aventura, existe apenas uma certeza: sem novidade, a conclusão do nosso plano de viagem dentro do calendário inicialmente desenhado é uma óbvia impossibilidade. Como voltar para trás é um cenário ainda nem equacionado, resta a conclusão óbvia que este ano o Deuch e eu não estaremos pelo Porto na quadra natalícia.

Mas se é certo que não estaremos os dois, há a possibilidade de estar um em representação da dupla. Para não variar, também o nosso destino natalício não está nas nossas mãos. Mas desta feita, estará nas mãos de 3 pessoas que, ao longo de toda a minha vida, nunca se cansaram de dar provas de estarem à altura do desafio. Bem vindos ao lado sentimental desta odisseia. Um conto de Natal dos tempos modernos, sem Era um vez, com a Mãe no lugar do Pai Natal e com um final interactivo. Façam-se confortáveis: este post promete ser longo.

Há cerca de um mês, e depois de 7 na estrada, pela primeira vez desde a partida, chorei. Sem pré-aviso, a caminho da cidade natal do Slava, Krasnauralsk, sentado no banco de trás do carro da Masha e no meio de uma animada viagem de um par de horas, uma música lança-me num choro compulsivo. Ne me quitte pas, de Jacques Brel, cantado numa voz feminina. Um raio que se esqueceu da trovoada.

Há momentos, lugares, músicas que vemos serem roubados por certas pessoas, que deixam de ser nossos para, no nosso imaginário, serem apropriados por elas. Esta música tem a originalidade de me ter sido roubada pela própria pessoa que ma ofereceu: o meu avô, Manuel da Cunha Moreira. Apaixonado pela cultura francofona, esta era uma das suas músicas favoritas, uma das que desde miudo me habituei a ouvir no gira-discos da sua/nossa casa.

Num repente, vejo-me num inesperado flashback. Ao longo da minha vida, perdi 4 pessoas que me eram muito próximas, 4 pessoas que desde sempre parte do meu imaginário. Aquelas pessoas que nunca chegamos a conhecer, que nunca nos foram apresentadas, porque pura e simplesmente sempre estiveram lá. Acho que posso dizer que perdi 3 familiares e meio. A Avó Rosa, a única bisavó que conheci, uma mulher extraordinária que viveu nas 10 décadas do século XX; o Sr. Casal, melhor amigo, pai e avô, respectivamente, do meu avô, da minha madrinha Mité e do Ruca, o meu melhor amigo; um personagem verdadeiramente único, repleto daqueles adoráveis pequenos defeitos e de uma individualidade apaixonante; um dos meus contadores de história preferidos e a única pessoa autorizada a fumar lá em casa.

As restantes são duas das pessoas com as quais desde sempre mais de identifiquei e nas quais mais e mais me revejo: a minha Avó Linda, cozinheira de mão cheia (a melhor que alguma vez conheci), mulher de uma energia, de uma força inesgotável e de um coração do tamanho do Mundo; e o meu Avô Moreira, uma história de vida notável, toda ela feita a pulso; de uma abnegação verdadeiramente altruísta, mais do que à causa pública, à causas de todos, muito especialmente daqueles cujas vicissitudes das suas vidas impediam a sua voz de ser ouvida; o mais extraordinário carácter que alguma vez conheci, uma personalidade que, com todos os seus defeitos e virtudes, foi sempre de uma fidelidade ímpar aos seus princípios e que, não só mas sobretudo por essa razão, deixou sempre uma profunda marca em todos aqueles que o conheceram.

Os 3 primeiros fizeram um enorme favor a todos (os muitos) de nós para quem representavam algo de muito especial: o favor de nos avisar, com o devido tempo, que nos iam deixar. Nunca estamos preparados para tal momento, algo fica sempre por dizer e por mais que nos esforcemos, nunca conseguimos demonstrar-lhes os quão importantes são para nós (até porque o tamanho desse sentimento é algo que nos continua a surpreender ao longo das nossas vidas). Mas fica a doce ilusão de termos estado lá quando mais precisaram, de termos feito o nosso melhor para os fazer sentir o quão queridos eram e são. Num tom mais egoísta, de termos espremido ao segundo o privilégio da sua companhia. Foi-me extremamente reconfortante ter no final das suas vidas, a oportunidade de pagar, ainda que apenas numa ínfima parte, os sacrifícios que a Avó Rosa e a Avó Linda fizeram nos meus críticos primeiros anos de vida. Assim como, em relação à segunda, ter saboreados mais um dos seus deliciosos refrescos de café ou ter o prazer de lanchar mais uma vez com as suas amigas, sempre tão contentes pela companhia de tão beijoqueiro neto. Ou poder terminar mais uma tarde de trabalho a ouvir as inesgotaveis e surreais aventuras do Sr. Casal, entre as quais ele sempre me confidenciava eh pá, o Ruca, Paisagista pá, oh Tiago o que achas?

Naquela noite, aquele presente roubado fez-me abruptamente ter consciência de que a morte repentina do meu Avô me tinha também ela roubado algo: a possibilidade desse adeus, dessa doce ilusão. Pela primeira vez, tive a consciência que palavras que deviam ter sido ditas já mais o poderão vir a ser.

Um turbilhão de emoções contraditórias percorreram-me naquelas inesperadas lágrimas. Uma forte tristeza inicial, contrabalançada todavia por um despertar em vários sentidos. A consciência que por vezes é a vida que nos prega rasteiras, deixando-nos impotentes face à sua inesgotável capacidade de nos surpreender. Mas sobretudo a consciência que na maioria das vezes é o nosso próprio orgulho, teimosia ou uma estúpida timidez que nos impede de exprimir os melhores dos nossos sentimentos aos melhores da nossa gente. O susto foi tal que não tardei em abrir por completo o coração ás duas pessoas que mais o mereciam e merecem: os meus pais. Como estou bem mais próximo das palavras do Rui Veloso do que as do dito popular: longe da vista, mas perto do coração. Por mais vezes que parte, serei sempre surpreendido pela capacidade da distância para nos aproxima daqueles que têm verdadeiramente significado nas nossas vidas.

Mas mais relevante para estar trama, o verdadeiro acordar desta odisseia. Perdi a conta ao número de vezes em que me perguntaram o porquê desta viagem. Consoante o meu estado de espírito, a resposta vai variando. Confesso que, parcialmente vencido pelo desgastar da questão, já raramente me aventuro muito para além de meia-dúzia de lugares comuns. A verdade é que, à partida, nunca faço a menor ideia. Claro, tenho mil e uma razões para estar aqui e cada dia de viagem é não só uma nova justificação para todas elas, como consegue sempre apresentar novos argumentos. Mas a verdadeira razão, o sentido último, esse não se sabe. Diría mesmo, nem se procura: encontra-se, algures no caminho.

Num dos primeiros post escritos desde a minha cidade russa adoptiva escrevia que, mesmo não tendo então ideia qual, uma certeza me deixava reconfortado: o Deuch tinha parado por uma razão muito forte. Irónico ter a resposta chegado na sua língua francesa.

Umas das imagens mais fortes que guardo dos meus avós é a do brilho dos seus olhos ao ver toda a família reunida no Natal. Para ambos, a família era o seu mais que tudo, o seu maior motivo de orgulho. Por essa razão, olhar em seu redor e ver ali filhos e netos todos reunidos era a sua suprema alegria. Essa será também umas das marcas mais fortes que deixaram na minha personalidade: a curiosa contradição de uma fortíssima ligação emocional à minha família num espírito cronicamente dezenraizado ou, se calhar, com raízes por toda a parte. Filosofismos à parte, qualquer dos caminhos me leva a Roma.

O tempo corre em sentido único e o que não foi dito, jamais o será. Mas se é verdade que o tempo não volta para trás, não é menos verdade que a memória tem a capacidade de caminhar no sentido inverso. Os olhos da minha Avó Linda brilhariam hoje com a mesma ou ainda mais intensidade pudesse ela dar uma espreitadela ao Natal da família Alves. Infelizmente, o meu Avô seria certamente invadido por uma enorme tristeza, tivesse ele a mesma oportunidade de espreitar o Natal da sua família.

Há mais de 5 anos anos que a minha família materna partilha pouco mais do que o apelido Moreira. Uma bem intencionada experiência de vida comum entre feitios demasiado decalcados acabou em ruptura total entre mãe e filhas/irmãs, estando a família desde então literalmente partida em dois. Um cenário que mesmo para mim, parte, vítima e, inevitavelmente, também actor nessa tragédia, é uma completa aberração. Algo que, confesso, ultrapassa largamente a minha capacidade de compreensão.

Naquela noite de Novembro, aquele presente roubado apresentou-me ao fim de 7 meses o sentido último desta aventura: fazer da minha distância o factor de aproximação da minha família.

Mãe, Tia Lena e Avó: por esta altura já devem ter adivinhado que serão as vossas mãos a escrever o final desta história. Não é preciso conhecer-vos particularmente bem para saber que, não obstante as águas passadas, aquilo que vos une é enorme e que qualquer uma de vocês tem a perfeita consciência disso. Curioso como acaba mesmo por ser algo que as 3 partilham a razão principal pela qual esta coisa contra-natura se acabou por prolongar por todo este tempo: a vossa teimosia. Mas como vos conheço suficientemente bem, tomo eu o passo que nenhuma parece querer tomar: o primeiro.

As saudades já apertam e, como vocês bem sabem, o Natal é uma época particularmente especial para mim, mas vazia de qualquer sentido senão passada junto da minha família e todos aqueles que me são próximos. Já tenho as Matrioscas para oferecer às tias e Prima Luísa, até já sei que T-shirt vou usar. Quanto a caviares Tio Avelino, só suspiro mesmo pelo fiel amigo e quebrar a tradição do Bingo de Natal com o Ruca é algo que me deixaria tão triste como desapontado. Tenho tudo tratado para fazer um curto intervalo nesta aventura e dar um salto a casa.

Mas este Natal, só o faço sob uma condição: que as pazes sejam feitas e que a família Moreira se volte a reunir à mesa. Por outras palavras, que voltemos a honrar o legado mais importante de quem nos deixou tanto e que simplesmente deixemos, uma vez mais, os melhores e maiores dos nossos sentimentos prevalecer.

E eis mais uma originalidade deste conto: é as mães-natal quem escrevo este ano, com este singelo pedido: o regresso da minha família materna.

Avó e manas: Fico ansiosamente à espera que me contem o final desta história.

Escrito por: tma & Le Deuch, 09:37:17 | Comentários(12)
Terça, 25-NOVEMBRO-2008
Emoções a uma só cor: azul e branco :)

O futebol em “livestream” pode estar a léguas de distância daquele que se vive num estádio onde as emoções ultrapassam largamente aquilo a que a Razão poderá alguma vez aceder.

Mas o do meu Porto, esse simplesmente apenas do mesmo síndroma da nossa aventure: não tem fronteiras! Ganda Porto, CARAGO!!!

Escrito por: tma % the Deucj, 10:52:34 | Comentários(7)
Terça, 21-OUTUBRO-2008
Gobi Diaries - Day 7

After 7 days and 6 nights in some of the most idyllic settings I have ever had the chance to visit, the return to the sad Ulan-Bator. Once again in our journey, a phenomenon that as been repeating itself over and over again: the always brutal shock between the idyllic and the real world. Normally, repetition means habituation. But in this particular each time is as if the shock’s brutality is drawn more and more clear.

The desert’s fascination is something far beyond any expectations. Its complete emptiness, the apparent endlessness, the total silence underline by the absence of eco: the impact of all this, the impact of all its magic is something to overwhelming to be reduced into words.

I am, nonetheless, yet to find that pure place, the untouched virgin scenario which fills up my drive to go deeper and deeper into the wild. Yes, it is true: even the Gobi is no longer that isolated place completely apart from the “real world”. Even though most probably the most genuine of all places I have ever visited, the “western” world is worryingly settling in.

The “tourist camps” are pretty much everywhere. Of course, one still sleeps in a lovely Ger (the traditional tents still today used by the local nomads), they are all run by local people, normally extremely kind, Mongolian-only speaking old people, places where electricity is not available and where you put into perspective all the so called “comforts” of our daily life. But standardisation is attacking hard. The Ger experience is pretty much alike wherever you are, that standing for the food you get (yes Uncle, mouton, mouton, mouton… - and if you allow me a Portuguese expression: nada de cabrito, só mesmo … cabrão), the timetables, even the price. From my experience, the main difference between Gers is how isolated the place is, how well the cook can disguise the old mouton meat and how fortunate you are not to have any other English speakers around. Don’t get me wrong: I am one who loves to socialise. But not in the desert.

The second disappointing thing is the fact that once in a tour (and it is a bit hard to avoid being in one) your trail is due o be following and be followed by those of other tourists. Again, standardisation… It is surprisingly disappointing to roll on the van for over 6 hours to arrive in this remote place and… to see the promise of the empty land ruined by a couple of other groups of white faces.

The last downside, the time spent on the Van. To anyone adventuring her or himself in such a journey, I do strongly recommend to make it in at least 10/12 days, allowing yourself some days off driving, probably tracking in between sleeping spots for a couple of days or simply enjoying, for instance, nice walks and the sun set on the sandy dunes. In case you are on the clock, then focus on the most beautiful places and make the most out of it. By the end of our journey, we could all agree to spend about 5/6 days in the van everyday is way too much.

But not all bad on our van. Miska, our 60 years’ old driver was The Man. With his little English and my even smaller Russian, we did just fine. Roads do not exist around here and the reference points are scarce, being euphemistic. Nevertheless, maps, compass, GPS are things which use he can not understand. By the end of each day, it was always a challenge to both of us to draw our route on my map. I kept pointing to the so called roads and he kept saying Here Miska no road. Plus, the van, an old Russian model who literally had some mechanic problems every single day, really added to the whole scenario. Radiator malfunction right when he picked us up at the hostel, the engine broke down on the second day and every morning to start it up it was quite a challenge. But Miska’s face was always tranquil. His mechanic skills were as good as his driving ones. Thus, it would never take too much time for him to come up with a solution. Owen and I were always praying for the problem to be a definitive one, so we could finally have the chance to sleep literally on the middle of nowhere. But Miska never gaves us chance.

Well, if the chance is not given, you go and look for it. After sleeping one night outside our Ger literally with the camels, the call of the sand dunes was almost irresistible. Around 11 (one curiosity: having no electricity, your biological clock quickly gets synchronised with the sun) everyone in my group was already asleep, but I was still up for something. Went out to write on my diary, chitchatted for a bit with some of the other tourists in the camp, but as well them were on their way to bed and an early rise. When I grabbed my bottle of vodka to join the only ones still around the fire, Miska and the other locals, Owen came out of the Ger. I was on the bed thinking: that Portuguese bastard is most likely up to something I will regret not having done tomorrow morning. So, let’s go and sleep in the dunes? That was just the last push I needed. In a few minutes, there we were, back pack and sleeping bags on, vodka and Port’s bottles with us, in our 40 minutes walk to the highest dune.

Our group’s dynamics was close to perfection. The best example on how well we all got along is the fact that one hour after arriving in Ulan-Bator, after being stuck with each other for 7 days, there we were all together in the Pub, drinking and going through all our stories and adventures. In a time I am more and more used to travel on my own, it was a surprise how much I have enjoyed Paula, Mat, Mark’s and Owen’s company. With very different profiles, we share the same will for travelling, discover the unknown, talk, drink, enjoy ourselves and, by the end of eat, our hate for mouton. Impressive how after so many ours together, we were always able to keep the conversation alive!

I guess I can say Owen and I were, from the 5, the more adventurous ones. We could not come across a dog without making friends with it, we could not resist talk and pad the camels till they allowed us to hug them (ok, ok, the fact we were giving them a bit a vodka cola might have helped in the process) and we could never come across a distant mountains or dune without wanting to walk till its top. In that sense, he is probably the most alike person I have ever met. This said, we had to be the two on that dune.

I don’t recall a freezing night to bring me such memories. The fact the whole thing was unplanned, came out of nothing, out of our pure will for adventure, the fact we had no clue what animals we could come across, what exactly would we need to bring with us, how could would it really be. The fact there were so many question marks only made the whole thing more enjoyable.

One night keeping myself as warm as I could inside my sleeping bag (again with the help of the Port and the Vodka), after waking up and, still freezing, climbing all the way up to the dunce once again (we end up sleeping in the bottom, to protect ourselves from the wind), the greatest of all compensations: the sun rise.

I could be going on for hours, trying to describe everyone one of the flow of sensations both of us went through that night. But it would only be painful for your patience and undermining to the emotions themselves. I can only tell this was a night I will never, ever forget, one of the single greatest experiences of my life. Looking back, I can not stop wonder how similar the mighty water on all its magnificence, my beloved Ocean, and its complete absence are!

But back to the now, back to the shocking reality. Even if quite fed up with all the bumpy rides (how I missed to be driving then…), how disappointing it was to meet an asphalt road again. After all the breathtaking settings we had just visited, the calm, the quietness, to re-enter Ulan-Bator was almost painful.

But more than painful, I would say even sad, was to realise my own limitations as a “western minded” one. To realise that if I had to choose living in any of those heavenly places or in the chaotic, shallow and characterless Ulan-Bator, a city on the brink to loose the little of itself which is still left, I would most likely to for the second one…

This is a topic to deserve much more attention then the one the last paragraph of such a long post is able to provide. But I leave you with one last thought. Or better, one last provocation: there has to be something of fundamentally wrong with our society, with our way of life, for us to be so apart of such beautiful and pure places, of such pure and simple ways of perceiving the world.

P.S. – I am uploading this post just about an hour before leaving once again to the Mongolian countryside. My visa is sorted out and I will be leaving back to Ekaterinburg this Friday, arriving on Monday the 27th. Sadly, Paula and Mat are already in Beijing, so this time will be only Mark, Owen and I. The plan is to horse ride for two days, always between villages. Then I will be back directly to my train, while the other two will keep on their journey for some days more. These couple of days in UB only made the last words written in this post more notorious. Hence, I am very glad I will be going directly from the countryside to the train, with the image of true Mongolia still fresh in my eyes. And here I have, another new experience: horse riding. I hope they give me one of those old U-shaped horses lol

P.S 2 – I am sorry for the probable spelling and grammatical errors. Again I am on the clock, without time to proof-read the text I have written a couple of days ago. My apologies.

Escrito por: TMA, 11:53:46 | Comentários(4)
Quinta, 25-SETEMBRO-2008
O inocente do silêncio!

Olá a todos,

Antes de mais, a minhas sinceras desculpas por tão prolongado silêncio. Parece que ao contrario de mim, os meus “gadgets” não se dão muito bem nesta minha cidade adoptiva. Depois do meu fiel amigo (qual bacalhau lol) de quatro rodas, foi a vez do meu inseparavel computador experimentar as agruras de Ekaterinburgo. Nada de muito grave, apenas um pequeno problema na ligação ao carregador.

Todavia, o fumo branco começa a conquistar o horizonte. As peças foram finalmente localizadas (não aqui ainda, mas pelo menos já sabemos por onde andam, um importante primeiro passo) e o meu portátil aqui esta de volta. Afinal, concertar algo por estas bandas não parece ser uma missão impossível! Com o meu portátil, regressam os relatos das minhas aventuras. Aventuras que, pese este silencio forçado, continuam a suceder-se a um ritmo alucinante: Mongolia, o surreal Trans-siberiano, a surpreendente rececpção em Eka, o properar da minha vida social por estas bandas, etc.

Para já, ficam estas palavras, sobretudo de penitência. Já de seguida, bem ao estilo da Euronews, um post No comment: apenas fotos e videos para vos abrir o apetite. Afinal, depois de todo este jejum, merecem nada menos do que um banquete de histórias divertidas, alucinantes aventuras e doces desventuras.

Пока,

ТМА & Лы Деущ

Escrito por: TMA & Le Deuch, 09:25:05 | Comentários(17)
Saturday, 13-SETEMBRO-2008
O palco ao Projecto Social

This has to be quick!

I am on the road again. Or better saying, on the track. With a 100% rate of success, our Mongolia mission finally comes to its end. The success rate is, however, still depending on me writing this post quickly enough to make it on time to the train, which is leaving in 20 minutes.

I am leaving the surprising (on a negative stance for the most of it) Mongolian Capital, Ulaanbaatar, heading again to “my Russian city”: Ekaterinburg. Once there, again the fight to find the parts, lost somewhere in this huge country. Quite looking forward to again meet up with the many friends I left there.

For the next 3 days I will be stuck on the train, only having the chance of a couple of 20 minutes hop off’s to buy some food and other essential goods (mainly, Vodka and beer). While I am in the train, I would like to leave you with one of the most important sides of this adventure: its Social Project.

As you know, this Sunday the Paralympic Games started in Beijing. Unfortunately, our adventures and misadventures did not allow us to arrive at the Chinese Capital on time for the event. But though physically distant, our spirit and soul are set on the many outstanding athletes who, against all the odds, will be given us all a true example of courage, sacrifice and perseverance. Through their everyday life, these exceptional men and women teach us to look further our own belly, putting our life, our problems in perspective. Teach us that there is always a way, the majority of the times, even a better one.

From some weeks now, through this website you cab buy a postcard, which I will have the pleasure to send you from the point of our journey of your preference. Each postcard has the cost of 5Euros (paid by bank transfer, as explained on the instructions given during the operation). From the 5 Euros, 2 will be donated to the Paralympic Movement of your country!

A little contribution that can make a huge difference in the lives of people whose merit id beyond any question!

Should you have any questions regarding the social project and the postcards purchasing process, please contact us through the following email: expedition@2cvportobeijing.com. We will be glad to answer all your queries.

Escrito por: TMA & Le Deuch, 09:47:28 | Comentários(24)
Segunda, 01-SETEMBRO-2008
Missão "Pernas para que te quero": balanço intercalar

Sempre fui uma pessoa muito á frente, mas agora ainda mais. Não, o meu ego não conheceu um repentino surto de crescimento. Acontece apenas que, uma vez entrado na Sibéria, passo a estar 8 horas adiantado em relação á maioria dos que me lêem em Português. Com honrosas excepções, como o caso da nossa Macaense Rita, com quem, salvo o erro, passo a partilhar o fuso horário. Confesso que estar á frente é algo de que não gosto particularmente. Parece que tudo leva mais tempo a acontecer. Sobretudo os jogos do meu Porto. Ainda tenho o Dragão a despertar bem cedo na manha de cada jogo. Só que agora ele só sossega já vai alta a madrugada... A única vantagem é que devo finalmente deixar de receber telefonemas a horas impróprias. Com 8 horas de diferenças, já devo ficar a salvo mesmo dos mais noctivagos.

Mas vamos ao tema deste post: a nossa operação de fuga está a ser, até ao momento, um tremendo sucesso. Num país em que o caos e a confusão são ainda dominantes, os comboios são sem dúvida uma lufada de ar fresco. Pese viajarem por mais de 4 dias, são de uma pontualidade quase britânica. No interior, uma vez passado o impacto de inicial de um comboio cheio e sem assentos (apenas camas), nova agradável surpresa. Deixo as descrições mais detalhadas para mais tarde, mas posso adiantar que mesmo viajando em 3ª classe temos à nossa disposição os confortos mínimos necessários para 3 dias traquilos de viagem. Uma excelente oportunidade para por o sono em dia e, claro está, continuar a conhecer pessoas um pouco de todo o mundo.

Sem sobressaltos, cheguei a Irkutks ontem já de madrugada (3 da manha locais). O objectivo: conseguir um visto para a Mongólia em menos de 24 horas e conseguir ir ainda a tempo do único comboio que me poderia colocar a salvo de uma nada simpática aventura com as autoridades fronteiriças russas. Como a bilheteira apenas abria ás 8 da manha, despedi-de um um grupo de 2 espanhois e um tuga adoptado com quem acabei de partilhar grande parte da viagem e deixei-me dormir ali mesmo. Uma estação repleta, mas onde aparentemente não é permitido dormir no chão. Mas quando o sono aperta, a cabeça apenas exige um qualquer apoio. Às 7.50 da manha acordei como novo.

A primeira parte da nossa missão em Irkutsk foi muito tranquila. Encontrei uma bilheteira deserta e ás 8.20 tinha já o bilhete para o comboio desta noite na mão e as malas no depósito, pronto para o desafio maior: o visto. Caminhada de cerca de 30 minutos até ao cosulado, espera pelas 9.30 e o primeiro susto: enquanto esperava na fila e pese tudo em meu redor estar escrito apenas em Russo, apercebi-me que o preçario apenas fazia referência a vistos em 7, 5, 3 ou 1 dia. Ups... Será mesmo!? Chegada a minha vez, tempo de fazer o choradinho. Surpreendido por um inglês muito razoável da contra-parte, expliquei a minha situação, contrapuz o sermão do deixar a coisa para o último dia com o infortúneo do meu fiel Deuch (mas será que ela não viu que tenho passaport Português? Se não deixo a coisa para o último dia ainda me arrisco a perder a nacionalidade) e recebo um encorajador: Maybe, maybe. Corrida ao banco para fazer o depósito, entrega do formulário devidamente preenchido e ordem para levantar o passaporte ás 4 da tarde. Pelo meio, tempo ainda de dar uma ajuda a uma escocesa numa situação similar à minha e que seguirá, juntamente com as suas restantes companheiras de viagem, até Ullanbatar no mesmo comboio que eu.

Agora, resta-me não perder o comboio e esperar que as autoridades fronteiriças de um e outro lado não me apresentem problemas de última hora. E já agora, que as amigas da Samantha, a escocesa, sejam jeitosas LOL

Vemo-nos pela mítica terra dos Mongóis!

Escrito por: TMA& Le Deuch, 01:22:17 | Comentários(201)
Sexta, 29-AGOSTO-2008
Good News, Bad news

So, the Deuch needed parts are still to arrive in Ekaterinburg. They have left the UK on the 16th of August and are now somewhere lost in Russia... and Russia is not exactly this small place where things are easy to find. But if you think these were the bad news, you are wrong.

In the mean time, my Russian Visa is expiring on the 2nd of September, meaning, in 4 days. According to Russian regulations, it is not possible to get an extension, thus, I am forced to leave the country. At 7.30 pm this afternoon I will take a train towards Irkutsk, where I will arrive on Monday (indeed, 3 days on the train, nothing at all unusual around here). Once there, I have 24 hours to get the Mongolian Visa and catch the train towards Ulaanbaatar, the Mongolian capital. If I don’t manage to cross the Russian border before 23.59.59 of September the 2nd, I will become an illegal alien, something that could awesomely complicate my life around here. Again, if you thought these were the bad news, sorry to tell you wrong once again. These are no bad or good news: these are simply the facts.

Here another lesson of this endless learning process: to accept what it can be changed or controlled by you. When to embrace such an adventure, there are something one has to accept from the very start. For instance, if you are to travel by car for so long, you have to accept the high probability it will eventually get stolen and learn how to live with it. Sure, I make my best to park it on a nice place with a lot of movement, preferably nearby a hotel or a police station. But once I turn my back, that chapter is closed, as I can not afford myself to be constantly hunted by the fear of losing my things. Not if I am to enjoy the process. Or, using a living example: if I am to travel for over 50.000 in an old car in such extreme conditions, to face mechanic problems is a statistic true waiting for confirmation.

The same with the car parts. I have done my homework. First, trying to get Citroen to pay the bill. When that didn’t work out, finding the cheapest possible way to get the parts here, place the order, follow it up and getting a mechanic in stand by to start working on the Deuch as soon as the parts are here. That’s is pretty much all I could do. From then on, you already now the answer: “God only knows…and I am an Atheistic” J

I may not have been able to control how much time I spent here. But it was only up to me to decide what to do with that time. After a week lost going around in circles, I decided to take control and make the most of it. Can’t say I am dissatisfied with the result! One month: it was how long it took me to build up my own life here. Apart from not having a job, I have pretty much all my social connections established. Even finally managed to find my Sunday football buddies. Russian style, but football nonetheless. But besides socially networking (finally I can say I made Friends in the country), I didn’t stay still. I had some Russian lessons and thanks to Valentina, my great and sweat teacher, I can now say my Russian skills are a basic work in progress. But above all, we made our adventure widely known around here. Nothing less that 5 TV reports (4 already aired, 1 to be in September), including all major regional channels and even one National one. I was even recognized by one of my neighbours, go figure it (ah, Portugalia!!!). Plus, the cherry on the top of the cake: the editor of a woman’s magazine saw one of the reports and invited me for a photo session. But it gets better: I wasn’t alone. A gorgeous model shot with me for over 2 hours, Adam and Eve being the topic. God, I shall never be interested in any other apple in my life! So, you have to pretend you find that girl very attractive, that you want her! Are you kidding, I thought to myself. Pretend?! Piece of cake! Lol

Unfortunately, my train will departure soon and as I have explained you, this is one train I can not afford to miss. Plus, before that I have to meet some of the many friends to say the so Portuguese Ate Já, or Paka in the native language. I suspend the social adventure for some days (about 2 weeks, the time to go to Mongolia, get a new Russian visa and return to pick up the car). Time to leave the couch and jump into the wild again. To start, a 3 days train ride and a marathon against the clock. Then, the mystic Mongolia, mine to explore! Again, the fact is I am to leave the country till the 2nd. But who told you I won’t be able to enjoy the process? Always adding to the adventure.

You must be wondering by now: what about the bed news? Well, first, I will have to leave Julia’s home and her unmatchable hospitality. And second, I am spending the whole weekend in the train. Meaning, I am losing Porto’s match against Benfica… well, maybe some facts are not that good after all lol

Escrito por: TMA & Le Deuch, 01:02:24 | Comentários(201)
Quinta, 28-AGOSTO-2008
O estrangeiro mais popular de Ekaterinburgo

Por fim, a oportunidade de começar a entender as razões por de trás desta minha recente ausência comunicativa. Apresento-vos umas das reportagens sobre o nosso projecto que têm passado nos diversos canais de televisão locais. Neste caso, nada menos do que a filial regional da Televisão Estatal Russa, somente o canal mais popular da região.

Deixo-vos com o vídeo e a tradução do texto em background, da autoria do próprio apresentador. Aliás, alguém já conhecido de todos vós: o meu amigo Slava, a Francesinha Legend!

 

ANCHOR SPEAKING

And one more story. It was in the middle of July when a guy named Tiago Moreira Alves came to the city of Ekaterinburg. Traveling from Portugal, he decided to cross the Europe, then Russia, Mongolia – and visit the Olympic Beijing. But life put everything in its own order. Tiago’s old little car broke – and fixing it takes more time anyone could ever guess. So since then he lives in Ekaterinburg – for a month already. He has liked Russia, but the more he stays here the more often he cooks his favorite Portuguese meals and the more often he misses his distant motherland. Our reporters had some time to notice that.

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((NATURAL SOUND

Entering Russia. Tiago shooting himself))

On the June, 23th, from North-West, near the town of Vyborg, a young man in his 27 crossed the Russian border. He had his small car and huge and ambitious plan. Driving his 1989 Citroen, he left Portugal, crossed the Europe to go all through Russia. That was what he was going to do in his 2-cylynders iron horse.

((NAT/SO
Tiago shooting himself

))

His name was Tiago Moreira Alves. His final destination was supposed to be Beijing.


((NAT/SO

))

From Portugal throughout Europe and Russia to China and back – everyone can see his route on the stickers that decorate his car. 8 months for going there and back. But it was Russian roads what became the start of a foreigner’s amazing adventures in Russia. First he overcame 70 kilometers of so-called “roads” near Kazan.

((NAT/SO))

Then he got acquainted to what is called “the mysterious Russian soul”. It was during Euro 2008. First Russian football fans were celebrating the victory over Holland. Then the same fans were disappointed by losing a match with Spanish team. Tiago was mistaken for a Spaniard and met pretty close with these people’s anger. Then, when fans and traveler made the situation clear, it became obvious that Russians and Portuguese are friends forever.

((NAT/SO))

The 14th of June. Saint-Petersburg, Moscow, Novgorod, Kazan and Perm are left behind. It’s the middle of the road – the border between Europe and Asia. Here at Ural Mountains you may cross it with a jump.

((NAT/SO))

But it was exactly in both-european-and-asian city of Ekaterinburg where the destiny pedaled its brake. A technician in a car repair center explained that with one rather international than Russian word.

((NAT/SO

"Finish!"
))

((A GUY FROM THE CAR CENTER SPEAKING:
The problem is not something unusual, concerning the age of this car…))

Details for this old car can’t be found not only in Ekaterinburg – probably in the whole Russia. Tiago had to order car parts from England. But what can be quickly done in Europe, is going to be discussed long enough in Russia –that is one of the first things to know about Russia. It’s been already a month that dust covers Tiago’s vehicle in this car service center. Despite this, the traveler have never felt a pity for driving a vehicle for which Russian technicians use a mysterious word “koryto”, or “trough”.

((TIAGO SPEAKING

-It’s my very first car. And it’s the third time when we go to such a trip – the longest one ever. Three years ago we traveled from Porto to Palermo, then to Istanbul, now to Beijing. I can give you a thousand of reasons why I choose this specific car. First of all, it’s catchy and fun. People are very friendly when they see it. And more of that, you can never tell what’s going to happen: if it’s going to run or if it stops, how can I manage if some details break. It’s all part of the journey. If you want to know exactly what’s going to happen – you go to some travel agency, buy a tour, fly there and back – you have everything under control. But if you want to have more adventures, not knowing what’s going to happen the next moment, I may guarantee you: there’s nothing like this car. ))

His traveling is his way of living. He made this choice by himself, right before getting his master’s degree in law. He only had to pass his final exams and get his license, but Tiago decided to continue his education in different places and different countries.

((TIAGO SPEAKING

Being a lawyer and traveling are two things you can’t combine. Not that most of lawyers I know are boring, but their lives are somewhat in that way. That made me go to this trip. Even if I like being a lawyer, I won’t feel myself good living a boring life. Sometime I like my job, but most of the time… I mean, you can’t expect your life to be really exciting while being a lawyer. And that’s the main reason why I took my things, put them in a car and left. When I’m back home, we’ll see – probably, I will sit in my office working, but perhaps I will sit in a car again to go further.))

But eventually living a life of almost a local person is something really new for him. If Tiago ever stayed in any Russian city, that wasn’t longer than 2 days. Here with his camera he walked the city back and forth many times. After a month of living here, he became pretty much Russian. He got used to Russian meals, liked kasha – a sort of porridge – with mushrooms, and sometimes has a shot of vodka instead of beer or wine. Russians can’t make the real port as in Porto, he sighs.


((NATSOUND
Tiago raises a glass saying “Na zdorovie” (Cheers)
))

Here he already found some people who were happy to help him. Ekaterinburg has pretty strong community of “couch-surfers” – people who prefer to travel without booking hotels or even hostels. They have a site at Internet for such travelers, so anybody may ask for a place to spend a night or two while they are abroad – and now they are hosting Tiago who actually travels the same way.

((NATALIA SPEAKING

He’s a guest everybody can only dream of. He comes home hungry, cooks himself some smashed eggs, excuses about that and just stuffs a fridge with food he’s just bought...))

Now he uses Internet to tell his compatriots about the Russia which is not terra incognita anymore. He has his own website to tell everyone how he’s doing here. He has to while the trip is supposed to be some sort of social-oriented event. For example, Tiago sells the postcards which can be delivered to you from any city along his road. Two of 5 euros fro each postcard are being sent to support the Paralympics team of the country where he’s staying right now.


((TIAGO SPEAKING

There’s a radio station which interview me live twice a week. Then, there’s a cable TV channel in Porto, they use my videos and photos to make daily stories about my journey. That’s the reason why I don’t make all these “movies” for myself, I download those so that press in Porto could have access to them))

When the forth week of waiting was coming to its end, Tiago almost gave up. It’s going to be a long time trip, and he didn’t go a half of his route. So he decided to take Russian language lessons so that fell himself more comfortable in this unforeseen circumstance.

((TIAGO HAVING HIS LESSON

Good afternoon, Valentina. How are you?


))

He has only had 3 lessons and the teacher has already called him a brilliant student. Russian is not the first language Tiago’s learning, he already speaks his native Portuguese, English, Italian, Spanish, some French and German.

((TIAGO HAVING HIS LESSON

I have a camera. I have a… macine? Machine? Macine? Machine!"
))

Russian say “Your language can lead you anywhere”. Tiago still thinks that his Russian may lead him to Beijing. He’s not going to give up, it’s a matter of principle. He was told details for her car are going to be delivered really shortly. Though, he heard one more Russian saying – “A promise is being kept for three years”. All in all, he’s ready to go on at any moment.


((TIAGO SHOWS A BOTTLE


When I feel myself really bad, I take this bottle out, drink a little and feel like the world’s getting better. That’s the best thing for a journey like that.
))

Radik Zalilov, Eugeny Sverdlov, Alexei Taranov, Vesti-Ural Weekly

 
Escrito por: TMA&Le Deuch, 06:35:51 | Comentários(5)
Saturday, 16-AGOSTO-2008
A frase...da noite!
No auge de 2 ressacas (a ENORME da vodka e vinho do porto de ontem à noite e a ainda maior do jogo desta noite...) eis que a resposta perfeita surge à milionésia vez em que a “1 million dollar question” nos é colocada:

“So, for how long more will you stay in Ekaterinburg? Well, God only knows… and I am an Atheistic”! (Entao, quanto tempo mais ficas em Ekaterinburgo? Bem, so Deus sabe… e eu sou ateu…”
Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:08:29 | Comentários(95)
Sexta, 08-AGOSTO-2008
Handwriting, being, dreaming!

Handwriting! A unhabit I hardly (if) ever miss. My basic school teacher, D. Alexandrina (a personage crossing generations in my family, having thought my mother, my aunt and two of my cousins before ending her brilliant career with my own generation) tried everything to erase the gatafunhos (non-understandable characters) from my writing. Your handwriting is not exactly hugly, but all those gatafunhos… - she always sympathetically said. Yet, all the double line notebooks in the world were not enough to save me.

Since an early age, my thought got used to be much quicker then my pen. The one to blame? My mother. Thanks to her, I learn how to write long before becoming familiarized with the alphabet. I was only 4 years old when I discover the pleasure of setting my mind, my thoughts loose! No concerns about logic, about where to end. Just to materialize the Self in words. I did the talking, my mother the writing.

Far from imagining she was doing so, my mother was sentencing me to life. To a life being, living according to my already at the time emerging personality. If I am allowed two Portuguese expressions, the words on the top of my tongue, the heart always in my mouth. Always eager to live the next word to be said, the word not yet spoken, though sadly not always patience enough to properly taste the one just spoken.

My distant handwriting as the perfect metaphor of the truest self of myself. The impatience to live, the endless search for the word not yet spoken, regenerating itself at every new one I manage to speak. A way of looking the World through my two eyes only. An handwriting which, similarly to my own life, is only tasty and meaningful when drawn exactly as my eyes see it!

How a laptop without battery and one of those moments which only the the words can make eternal come together, as if only to show me how this unhabit of mine was (and is) after all, always so present.

Once again, we found ourselves in my very own inner Ekaterinburg. The Ekaterinburg of my own thoughts, always ready to defy and twist any premeditated goal words may had on their own. And suddenly, this post becomes the description and own demonstration of what has just described. In the end of the day, just one eccentricity more in a day full of them. From wanting to learn Russian in 7 days, to not being able to resist any longer and blow E35 in a steak finally worth such title. In the meantime, the biggesteccentricities off them all and mother of this once to be straight to the point post: the Olympic Smile!

Only now, after all this time, it finally hit me. While seated in a Pub at Ekaterinburg watching the Olympic Games’ Opening Ceremony I do finally understand our marketing move was itself the excuse to keep in hiding a dream now made so clear: the thrill of being there.

No, no. Forget the stands. Those are already waiting for us in 4 years time. Give eccentricity a break, people! I meant the floor! Not just being there, but being part of it! Let’s, for once, put the secondary in a secondary plan: the politics, the (even if understandable and, I would say, legitimate) opportunism of profiting from all eyes of the World being set in such an appellative spot. That smile of pure joy, of a dream and a lifetime’s illusion come true present in the face of every single athlete walking in that stadium! That smile is the Olympic Spirit’s own handwriting!

Thus my ultimate eccentricity: a pure, innocent, overwhelming smile of a true happy child. The true happy child I want to be forever !
 
But, at 27, which Sport can be the Deuch of this dream?
Escrito por: TMA & Le Deuch, 07:45:55 | Comentários(12)
Quinta, 07-AGOSTO-2008
Dar a volta às voltas que a vida dá!

Pois é, também eu tive um breve eclipse deste nosso ponto de encontro. Um pequeno interregno que por certo aguçou o vosso apetite por novidades deste nossa aventurosa desventura por Ekaterinburgo.

Mas antes de saltar para elas (as novidades), quero deixar uma palavra de sincero agradecimento a todos aqueles que, neste momento aparentemente delicado (acreditem, só o é à primeira vista) nos têm deixado inúmeras palavras de incentivo. Através deste website, via e-mail, sms ou através dos meus pais, as mensagens têm chegado de todo o lado e sempre repletas de energia! Uma palavra muito especial para o José Candeias e todos os ouvintes do seu “Clube dos Primeiros” (programa do Radio Clube Português), que à distância de um telefonema têm acompanhado a nossa aventura a par e passo. È surpreendentemente reconfortante olhar para o banco de trás (como diz a minha prima Luísa) e ver tanta gente confortavelmente sentada.

Sossegando os espíritos mais inquiétos: ainda me vão ter de aturar por mais uns meses, por mais uns quilometros. A aventura não está (nem nunca esteve) em risco e voltar para trás foi algo que nunca passou pelas nossas cabeças. Podem também ficar descasados, que estou a comer (e beber, por falar nisso...estes Russos e a vodka...) lindamente. Não deixa nunca de me surpreender que entre mil e um potenciais perigos com que nos podemos cruzar, a grande preocupação de toda a gente sempre que fala comigo é saber se ando a comer bem! Acho este toque da nossa portugaidade delicioso: nós portugueses temos essa ilusão de que com a barriga cheia, não há problema que não se resolva! Está decidido, na proxima francesinhada guardo uma para o Deuch!

Vamos ás novidades, que são muitas. Comecemos pelas más: a Citroen deu-nos a esperada nega. Nada tenho a apontar à sincera vontade ajudar de todos com quem falamos dentro da empresa. Mas aqui na Rússia, mais ainda do que em Portugal, tudo o que saia fora do normal é um verdadeiro 31. Depois de mais de uma semana à espera, foi-nos comunicado que falaram com Moscovo e Paris e que a citroen não tem as peças que pretendemos e que as mesmas apenas poderiam ser compradas no mercado negro. Ou seja: dizem-me que as peças que desde sempre comprei em Portugal...não existem em nenhum lado. Por outras palavras, é como depois de toda uma vida a comprar coca-cola em Portugal, tentar comprar coca-cola na Rússia e a empresa me dizer: não, não produzimos essa bebida em lado nenhum.

Uma vez recebida a resposta, era tempo para assumirmos nós próprios o comandos dos acontecimentos. Não me demorou mais de 5 minutos no google para encontrar diversas empresas com as peças de que necessitamos em stock e prontas a ser enviadas para qualquer ponto do mundo. 5 minutos de google foram o bastante para aparentemente conseguimos “ilumimar” esse aparente mercado negro. Mas havia uma importante decisão a tomar: tempo ou dinheiro? Peças em pouco tempo e caras, ou em 7/10 dias e mais em conta? Com a chegada a Pequim a tempo dos Jogos Olímpicos praticamente descartada (possível, mas implicaria perder os principais motivos que me fizeram vir por cima, como o Lago Baikal, Mongólia ou essa barreira psicológica chamada Vladivostoque), estavamos perante um momentos-chave, uma decisão de fundo na nossa aventura. Não obstante o seu peso, foi umas das decisões mais fáceis de tomar.

Depois de uma primeira semana em Ekaterinburgo verdadeiramente desesperante, ca caminhar em círculos e perdidos na nossa própria teia, finalmente voltamos a ser nós próprios. Como já aqui escrevi, os problemas são sobretudo excelentes janelas de oportunidade. O mundo nunca é preto ou branco, nenhuma situação é completamente boa ou má. Há sempre, sempre, sempre o outro lado da moeda, a tal metade do copo de água (vodka, neste caso) por beber. Depois de 5 dias a bater com a cara na trancada porta da frente, resolvemos ir à volta. Como sempre acontece, a casa tinha diversas janelas abertas nas traseiras.

Pela primeira vez na nossa viagem, tenho tempo! Tempo, um bem tão escasso desde que começamos a preparar esta aventura em Fevereiro. Tempo para colocar o site em ordem (que tal o novo look, colocar a venda de postais no ar, organizar e colocar na galeria todas as nossas fotos, por os muitos filmes já gravados em ordem, para vos prepara algumas surpresas que serão brevemente colocadas no ar. Por outras palavras, tempo para por a aventura em dia. Tempo também para parar, respirar, repensar e dar um nosso folego ao nosso projecto, numa fase em que a angariação de mais fundos começa a ganhar mais e mais importância. Tempo para começar a assimilar estes fantásticos 3 meses que já transformaram irremediavelmente a pessoa que sou. Tempo até para começarmos já a estruturar a nossa próxima aventura!

È curioso, mas a motivação e ilusão com o meu mais recente estilo de vida nunca esteve tão forte como nunca. Sempre o disse e agora posso afirma-lo com toda a certeza: a nossa aventura é isto. È não saber o que vamos encontrar no próximo dia, na próxima hora, no próximo quilómetro. Não ter planos, não ter raízes demasiado presas, ser livre e assumir essa liberdade de peito aberto. Saber que quando tudo corre bem, a vida, mesmo num estilo tão alternativo como este, é uma aborrecida música de uma só nota. Perceber que o mundo esconde muitos perígos, mas esses perígos são apenas uma infima fracção das coisas maravilhosas que podemos encontrar a cada esquina. Olhar para a vida com um olhar tão simples como ela própria é. Numa palavra, Viver!

Uau, no que este post se transformou. Como a vida não pára, independentemente do palco onde está em cena, tenho que terminar. Ekaterinburgo começa já a ser a minha cidade, um outro atractivo de toda esta situação: uma nova conquista de “teias” sociais. Mesmo aqui tão longe, mesmo parado, o meu precioso tempo é limitado. Limitado pela companhia das fantásticas pessoas que tenho conhecido, pelas muitas festas (estou agora mesmo a caminho de mais uma) e, agora também, pasmem-se, pelas aulas de Russo que comecei hoje. Afinal, tudo parte do mesmo conceito: já que estamos parados, usemos isso a nosso favor!

Quanto ao meu Deuch, não se preocupem. As peças já estão a caminho e dentro de 7 a 10 dias voltamos à estrada. Até lá, Ekaterinburgo ainda vai ouvir falar muito sobre nós. Quem sabe até já um bocado em Russo!

Escrito por: TMA & Le Deuch, 04:53:01 | Comentários(43)
Domingo, 03-AGOSTO-2008
Apenas um fenomeno mais
 
Mais um fenómeno, numa aventura que já os transformou em algo de “natural”. Ficam as imagens de um momento sempre tão raro quanto fascinante: um eclipse solar.

Uma curiosidade: também aqui, a cada eclipse lá surgem os experts a jurarem a pés juntos que estamos perante a once in a lifetime event, que apenas se voltará a repetir dentro de mais de 100 anos!!! Já alguém de se deu ao trabalho de contar o número de vezes que já nos contaram esta história?

Escrito por: TMA & Le Deuch, 09:37:13 | Comentários(119)
Quarta, 30-JULHO-2008
No news is...bad news

Esperar… esperar… esperar… Continuamos sem notícias da Citroen. Normalmente, No news is bad news… O meu amigo Misha falou esta manha ao telefone com o nosso contacto na Citroen, que adiou qualquer decisão para esta tarde ou, mais provavelmente, amanha. Mas aparentemente, o tom de voz pareceu longe do entusiasmo demonstrado durante a reunião da passada sexta-feira.

Tanto o Misha como eu saímos dessa reunião com um bom feeling. Apesar das já esperadas dificuldades de comunicação, a conversa correu bastante bem: tivemos a possibilidade de apresentar o nosso projecto e ambas as pessoas da Citroen presentes pareceram bastante agradadas com a sua audácia e originalidade. Eu sei que sou bastante suspeito, mas este parece-me um daquelas puras situações em que ambas as partes têm tudo a ganhar: nós precisamos quase desesperadamente de ajuda, sob o risco de vermos as nossas finanças dramaticamente ameaçadas; por outro lado, a Citroen é virtualmente inexistente por estes lados (para além do Deuch, apenas me lembro de ver outros carros da marca no concessionário...). Ora, aparentemente aqui está uma excelente oportunidade de, dentro de uma semana, surgirem em tudo o que é meio de comunicação social como os “Grande Herois”, uma marca que está sempre lá para os seus clientes, seja em que circunstância for. Televisão, rádio, imprensa escrita, todos os media estão aparentemente à distância da sua vontade. Como cereja no topo do bolo, finalmente a possibilidade da marca entrar no imaginário dos seus potenciais clientes, coisa que decididamente ainda não conseguiu. Eu sei que tenho vindo a repetir isto vezes e vezes sem conta. Mas vocês não podem ainda imaginar o impacto que o Pequenino tem nos países de leste, sobretudo aqui na Rússia. Infelizmente, a Citroen tem vindo a perder esta magnífica janela de oportunidade, uma vez que por mais fotografias que nos tirem, ninguém por estas bandas identifica o Deuch com a marca. A diferença que uns meros autocolantes com a logo Citroen nele colados fariam!

Depois de falar com o Misha, era imperioso fazer qualquer coisa e rápido. Havia ainda uma pequena janela para um último movimento de antecipação. Para nossa grande surpresa, a comunicação com a Citroen tem sido bastante problemática, desde que pela primeira vez lhes enviamos o nosso projeco, ainda em meados de Fevereiro. Ora, a barreira linguística não vem propriamente facilitar a terefa. Durante a reunião, a comunicação era feita no sentigo Eu – Misha – Pessoal da Citroen – Misha – Eu. Tentei aproveitar ao máximo o eye contact, colocar o meu mais simpático sorriso. Mas adicioar um terceiro elemento acarreta sempre bastante rúido (como os expersts gostam de lhe chamar) para o processo de comunicação.

Não tendo a certeza se a mensagem passou, impunha-se o envio do típico email de follow up, com o sumário dos nossos argumentos centrais. O assunto havia ainda de ser discutido com quem detém o poder de decisão e já mais de 3 dias passaram desde uma reunião onde a comunicação foi um problema. Logo, apenas fazer chegar às suas mãos algo de sólido com os nossos principais argumentos nos permitiria continuar a alimentar alguma esperança de sucesso. Mas era essencial que o email andasse mais rápido do que o não que se adivinhava. Misha ao telefone, eu no computador e missão bem sucedida! Foquei 3 pontos essenciais: sermos o meio mais rápido e barato até à imprensa; conquista do imaginário dos seus potenciais clientes; e, mais em abstracto, a possibilidade de usar o projecto em quaisquer eventos da própria marca para sua promoção.

Esperar, esperar, esperar... parece que é esta a nossa sina no que toca à Citroen. Esperar ad eternum... Por esta altura devíamos estar já perfeitamente habituados a esta situação. Mas confesso que no caso da Citroen, a situação é particularmente irritante. Ok, o escritório de Yekaterinburg só agora se cruzou connosco. Mas penso que era já tempo de a marca nos mostrar um pouco de consideração...

Nada é suposto ser fácil no que toca a relações de amor, certo? J

P.S. – Enquanto todos aguardamos que o Pequenino (que saudades...) recupere e porque uma imagem vale mais de mil palavras, deixo-vos com um pequeno filme de um momento hilariante já anteriormente descrito. Espero que gostem!

Escrito por: TMA & Le Deuch, 09:13:30 | Comentários(14)
Sexta, 25-JULHO-2008
Le Deuch
So, let’s talk about the White Little One. I bet yesterday’s post raised some questions. What happened exactly, what is the problem with the Deuch, what have we been doing to solve it and what is the current scenario? Some of the question marks we will try to turn into final dots.


As you have already been told, the Deuch refused to start again last Sunday. However, this did not happen out of the blue. First of all, our original plans were either to rebuild or even replace the engine before starting our journey. The engine was tired from many years of use and, above all, from our prior marathon to Istanbul. Done with tight schedule and budget, these 11.583 km in just 38 days were particularly painful to it. However, for our great surprise, during the 3 weeks the car spent at the Citroen’s garage the engine itself was untouched… When we have found that out it was however too late to do anything else but regret the decision of putting the car there. We took it due to the fact we were at the time trying to get Citroen as a sponsor, being clear their support would only come if the Deuch would be tuned up at an official dealer. Well, neither had we any answer on that, nor was the Deuch set up for such an odyssey. But they did not forget to send us the (quite expensive) bill… How surprising. Well, lesson number one for our futures enterprises: no mater which sponsors we will be hunting down, no one else but our mechanic since ever (the already known to you all Sr. Magalhães) is to be trusted with the Deuch’s preparation.


Cutting the story short, the Deuch’s condition was quite a poor one from the start. Same bold facts to give you an ide: an engine in normal conditions has a top speed of 110/120 km/h, while ours was 90…; we had backfires since day 1; During the 10 years I own the Deuch, not for a single time have I spent a deposit of gas making an average over 7lt per each 100 km, this including our 2 prior travels and all those long days in Porto’s traffic. Since we left Porto, the average is 8 on the road and reaches almost 10 (! while in the city… All this to say, we did learn our lesson!


Little by little, we started having more and more difficulties getting the Deuch started. Usually everything would go easy in the morning, but especially when we would stop for gas it took quite a lot of patience and accumulated experience to have him restarted. Last week, for the first time, we had to count on the help of a couple of locals to push us down the hill. The aim was to get a little further, till the Lake Baikal, where we had the contact of a mechanic who could give us a hand. Plus, it was a place where we had planned to stop for some days. Thus, repair wouldn’t make us fall behind the schedule. Unfortunately, we didn’t make it that far.


So, back on Sunday the 20th, in Yekaterinburg. I headed to the Deuch still undecided how many km were to be driven that day and far from imagining he had already made that decision on my behalf: none. As always, we did not fell short of help. Sasha, a Russian on his thirties who was parked just beside us, immediately came to help us. First pushing the car, then driving me to a Car Shop to buy a new set of candles and lastly, trying to figure out what could the problem be. We quickly came to the conclusion something was wrong with the “left part of the engine”. It could be the ignition box, the wires, the candle or, most unlikely, but as well most worryingly, the cylinder or even the engine. Logically, on a warm summer Sunday no mechanic was to be found working. Thus, nothing to be done besides waiting for the following morning.


In the meantime, two friends made during my stay in Yekaterinburg took our problem as if it was their own. Anton and Misha didn’t leave us alone for one second, either crossing the city or the yellow pages trying to find the right person to help us. Monday was a particularly despairing day, as we seemed to always be going around in circles. No mechanic would take our car in. Besides, as we were unable to move the car by ourselves, we couldn’t simply pop up at a mechanic shop. Nevertheless, we made some progress: the Citroen staff was, from the very start, very helpful: even though clueless on the Deuch (as mentioned before, western cars from before the nineties are unknown here), they looked up through their files for the reference of the parts we might need, indicating a company who could ship them to Yekaterinburg.


Only on Tuesday morning were we able to find a mechanic willing to see the White Little One. Again, only due to the Misha and Anton’s tremendous effort. Nonetheless, we still had to bring him there… The towing car is probably the first thing that came into your mind, but come on guys. By reading this blog you should know better by now. In Russia, there is always another way, so why to spend 100€ when you can have it done by 10? A Russian parked close to us agreed on towing us for 300 Rubles, old school Russian style: a normal car and a rope, of course! Put the lights on and try to stay as faraway from my car as possible. Guess he was not too happy with me driving while recording the whole thing, but I simply couldn’t miss this great piece of entertainment! Only me to have fun in such a scenario, but indeed, what a quite an experience! Even being towed, we kept it in style: top off and there he was, being as always the big attraction!


Once in the mechanic shop, the Deuch instantly became the centre of all attentions. Hilarious watching the owner calling the younger fellows to work every 5 minutes, as their eyes kept being dragged to the Klassne Machina! A task force of 3 mechanics was quickly set up to find out what could the problem be. Everything seemed ok with the electrical part, the candles were ok, so the first hunch was the ignition box. They started by trying to replace it by a Volga (a Russia classic from the eighties, famous for being one of the first cars running on Natural Gas). But the Deuch’s electrical resistance was too low. So, the task force focused now on tailoring an ignition box for the Deuch, putting two “one cylinder” ones into a single piece. The custom made part proved to work, but still the Deuch wouldn’t start. Soon we have confirmed one of the worse possible scenarios: one of the cylinders had lost all its compression… The problem was far more serious than initially thought. The diagnose: the tired engine had put a hell of a fight, but was unable to resist the bad quality of Russian gas…


The crowd around the Deuch had been growing bigger and bigger. Around him were now not only almost all the mechanics, but as well all the clients and the office staff. The task force seemed defeated. Machina caput. Porto – Yekaterinburg. Sell car and fly home, just to mention a couple of the scenarios presented to us. NO, NO and NO I refused myself to accept it. I’ve started by letting very, very clear I would never leave the Deuch behind, not even taking into consideration any buying offer. There had to be a way. It can not end up like thins. It simply can’t!


Little by little, I have been coming to this conclusion: in such scenarios, when you are in no position to present a real alternative and a proposal not fitting your needs is presented as the sole solution, the best course of action is often to say nothing, to do nothing. By not accepting the given solution and showing unimpressed by the pressure, people tend to feel the problem won’t fade away unless they manage to come up with another way. Thus, two common effects: either they put their minds back to work, or become more willing to compromise. The strategy seemed to be working. Despite the apparent final verdict, 10 minutes afterwards people started gathering around the Deuch again. Sign they knew this story was far from being over.


Perfect timing to make a call to Sr. Magalhães, explain him the situation and ask him what had to be done. But how? My Russian number can not make international calls… As always, a Russia comes in our help: seeing me with that powerless look, another client, who had in the meantime become a fan of both the Deuch and our Adventure, gently ask what the problem was and immediately gave me his cell once told. Ok, there is a solution. Now I just have to convince one of the mechanics to take the job. After much hesitation, a young guy made a couple of calls and told us he and another colleague would be up for it. But the colleague was on holidays and he himself quite busy, so they would be only able to start working on the Deuch next Monday. The poor guys, however, couldn’t imagine a third friend was just about to come in action to ruin his plans.


Jenya, a friend we have met together with Misha and Anton, managed to get one of the local TV Channels interested in our story. So, Wednesday morning we headed back to the mechanic shop, but this time with reinforcements: the TV crew. Suddenly, the mechanic was no longer busy: he grabbed his tools and started working on the Deuch’s engine with no further delay. Soon, the engine was de-assembled and our report in the air. And what a report. The Yekaterinburg Channel 4 people not only presented our crazy adventure, but as well focused on the unfortunate problem we had in hands. But on the top of it, set up a phone line where anyone willing to help could contact us!


Guess who called? Citroen PR department! Not a clue how willing to help they are, as we are only going to meet tomorrow. But it’s not a bad start. Above all local companies, they are the one who could profit the most with this entire situation. By far! Problems are often a window of opportunity to great solutions. This could indeed be the beginning of a beautiful friendship! Though, nothing but possibilities. Good ones, I agree, but still just possibilities.


However, there is something I forgot to mention on yesterday’s post which adds to our expectations. In 10 years, this was the second time only the Deuch left me in the middle of the street. The first time, I couldn’t be happier: the Little One, as if reading my mind, stop outside the city we were leaving against our will and where my heart had been left. Thus “giving” me two of my sweetest days ever. I wonder what his agenda is this time. I confess it’s not as obvious as it was back in the summer of 2001, but something tells me since the beginning he has one. I’ll be glad to find it out!

Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:55:28 | Comentários(23)
Quarta, 23-JULHO-2008
Le Deuch...niet!

Quando alguém se lança num desafio desta natureza, há certas inevitabilidades que têm de ser aceites à partida. Este é apenas um desses factos inultrapassaveis. Sejamos honestos: viajar durante tanto tempo, em condições como as que temos vindo a encontrar, esta era uma certeza estatística.

De facto, 18 países depois de termos partido do Porto, mais de 15.000 km realizados em condições extremas, depois de algumas ameaças ultrapassadas com paciência extra na hora de dar à chave ou a ajuda dos empurrões de alguns locais, o Meu Pequenino recusou-se a continuar. Domingo, dia 20 de Julho: quando nos preparavamos para começar a explorar a Ásia e entrar finalmente na Sibéria...niet! O Deuch não arrancava...

A combinação “Verão-Domingo-Calor abrazador” tornou impossível qualquer ajuda profissional, pelo que não restou outra alternativa a esperar pelo dia seguinte. Ainda assim, só na terça-feira conseguimos finalmente que um mecânico se dignasse a receber o Deuch e dar uma vista de olhos ao problema. Digo conseguimos porque toda esta situação apenas veio sublinhar uma das melhores facetas da população Russa: a sua disponibilidade para ajudar, independentemente da dificuldade da tarefa em mãos.

Regressarei a este ponto com maior retalhe, tanto no que toca ao problema que afecta o Deuch como ao seu hilariante processo de resolução. Processo e toda a confusão que com ele veio! Aliás, uma excelente metáfora do que de melhor (sobretudo!) e pior tem a sociedade urbana Russa. Por agora, apenas dizer que, ao contrário do que nos foi dito por diversas vezes ao longo dos últimos dias, isto está bem longe de significar Game Over para a nossa aventura. O problema deverá levar cerca de duas semanas a ser resolvido (sobretudo pelo tempo que leva qualquer peça específica a chegar até Yekaterinburg), mas deverá efectivamente ter solução!

De facto, não poderia haver melhor timing para prestar uma mais do que merecida homenagem ao meu Deuch! 35.000 km realizados no estrangeiro, 24 diferentes países e 2 continentes visitados, 146 dias na estrada: os nossos números desde que, em 2005, começamos a aventurarmo-nos em tais odisseias. Mas bem mais do que estes números, todas as incontáveis experiência, histórias e pessoas com que nos cruzamos e que para sempre farão parte de nós. Toda esta experiência de vida verdadeiramente única sem qualquer problema mecânico de maior até agora. Extraordinário, to say the very, very least! Parabéns Pequenino. É mais do que justo que, por uma vez, seja agora eu a tomar conta de ti!

Descansa Pequenino, descansa bem, porque estamos ainda muito, muito longe de termos terminado as nossas aventuras!

Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:56:02 | Comentários(21)
Sexta, 18-JULHO-2008
Muito mais do que uma barreira física, uma barreira psicológica
Numa simples linha, a Velha Europa fica para trás e abraçamos um novo continente.
 
 
Este mergulho na Rússia Profunda tem limitado consideravelmente o nosso acesso a Internet. Contudo, nada nem ninguém nos poderia impedir de celebrar com vocês o ultrapassar do principal marco da nossa aventura, ate este momento: a entrada no continente Asiático! Uma insuspeito monumento na beira da estrada, com uma não menos insuspeita linha de escassos centímetros, dificilmente perceptível mesmo para aqueles que vão em sua procura. A noção de turista estrangeiro a viajar fora do circuito do transsiberiano, por sua própria conta e risco, e um conceito ainda desconhecido por estas bandas.
 
De qualquer modo, tudo a contribuir para a emoção. Entrevista em directo com o nosso amigo José Candeias para o programa Clube dos Primeiros, no Radio Clube Português, o monumento que não quer aparecer e praticamente ninguém a quem perguntávamos fazia ideia sequer que ele existia. 3 semanas antes, acrescentaria ao meu desespero a inexistência de qualquer sinalização. Mas essa inocência dos primeiros dias há muito que ficou para trás.
 
Monumento localizado, mas... fica do outro lado da estrada. Uma vez mais, a nossa experiência vem em nosso auxilio. Deuch parado no meio da estrada nacional e, entre buzinadelas por todos os lados, la seguimos a toda a velocidade na primeira aberta. Uma manobra só por si merecedora de passaporte Russo! Chegados ao monumento, foi apenas o tempo de pousar a maquina e atender o telefone. Just in time!
 
Difícil de colocar em palavras a sensação de ter cada pé em seu continente. Longe, muito longe (a anos luz, diria) do encanto de cruzar o Bosforus, com os olhos mergulhados na beleza única de Istambul. Ainda assim, algo de verdadeiramente especial. Um só pais, um só corpo, dois continentes. Acima de tudo, o cruzar de uma enorme barreira psicológica.
 
Adeus Europa, voltamos-nos a ver na minha Istambul. De agora em diante, e nos próximos 4/5 meses lançamo-nos de peito aberto na desconhecida Ásia. E a Sibéria Tao perto...
 
Escrito por: TMA & Le Deuch, 05:26:39 | Comentários(13)
Sexta, 04-JULHO-2008
Novgorod: a missão impossível, Sspanha e um primeiro susto

Tinhamos ficado em St. Petersburgo, certo? Bem, infelizmente, apenas no que toca à nossa escrita. A verdade é que deixamos St. Petersburgo bastante hesitantes. A Festa “deitar o Dacha abaixo” da qual vos falei ontem dava-nos a perspectiva de uma grande acontecimento. Não apenas a certeza de uma MEGA festa, mas sem dúvida também um momento bastante peculiar para gravarmos na nossa câmara. Para além disso, já se podia respirar o fim-de-semana por toda a parte.

Não obstante, depois de 3/4 horas no Ermitage, o nosso lado racional conseguiu, por uma vez, levar a sua avante e lá voltamos novamente à estrada. Objectivo: Novgorod, uma cidade a cerca de 200 km. Curiosamente, embora em Russo o seu nome signifique “Cidade Nova”, é tida como a mais antiga cidade Russa.

Tempo para o nosso primeiro verdadeiro com as estrada Russas (ainda não falei muito sobre o tema, porque não tenho grandes dúvidas que se irá tornar um tema constante daqui para a frente). A abrir, o sair da segunda maior cidade Russa numa sexta-feira ao final da tarde. Ah, claro, apenas com o minúsculo mapa do centro histórico do nosso guia Lonely Planet. Apontamos mais ou menos na direcção certa (entenda-se, Sul) e partimos. Muito de quando em vez, encontrávamos umas placas a indicar “Moscovo, Talin, Kiev”, 3 cidades que não ficavam propriamente na mesma direcção... Mas lá continuamos a descer em direcção a sul, ou pelo menos a tentar fazê-lo. Depois de quase uma hora e quando já estávamos claramente nos subúrbios da cidade, finalmente nos surgiu como uma boa ideia perguntar se seguíamos no caminho certo. E não é que estávamos? Um inexedivel russo (mais um) mostrou-nos no seu próprio mapa quão perto estávamos da Moscva Prospekt. Uma vez aí, era sempre a direito.

Chegamos a Novgorod por volta das 11 da noite, a morrer de fome! Seguimos directos ao centro e mais directos ainda ao primeiro restaurante que aí encontramos. Aparentemente ainda estavam a servir, mas a empregada parecia tentar-nos explicar que haveria um qualquer problema com o nosso pedido. Como sempre, um russo que arranhava o inglês surge em nosso auxílio. Na verdade, 2 neste caso. Um jovem casal de St. Petersburgo que ali passava o fim-de-semana, com o qual nos pusemos de imediato à conversa. Quase desnecessário dizer que, uma vez contado o porquê de estarmos ali, ficaram divididos entre o “crazy” e o “amazing!”. Para adensar o grande mistério, dois Russos mais capazes de jurar que o no plano é impossível de concretizar. Simplesmente porque não existirem estradas ao longo de todo o percurso. Temos ouvido isto recorrentemente desde que entramos na Rússia. Nunca ninguém tentou fazer a rota, mas todos nos dizem impossível de ser feita. “Only big truk”, sempre nos dizem. Tento explicar o que li de outros viajantes, que inclusivamente ouvi relatos de diversos Russos que comprar carros em segunda mão no Japão e os conduzem até Moscovo para aí os vender. Mas em vão, nada os convence. Este casal acrescentou ainda que viveram já na Sibéria, onde compraram um carro. Quando regressaram, expediram o carro pelo comboio, pois foi-lhes dito ser impossível conduzi-lo até St. Petersburg. Bem, teremos todo o prazer em ter a última palavra nesta discussão. Para o bem ou para o mal!

A noite não terminaria, porém, sem o nosso primeiro pequeno susto no país. Antes de ir dormir, deixei o Deuch a descansar e parti para a minha habitual caminhada para “cheirar” a nova cidade. Aparentemente, a noite já era, pese ser ainda relativamente cedo. Apenas alguns pequenos grupos a beber e conversar tranquilamente nos parques em torno do Kremlin da cidade. Ainda assim, quando estava já a regressar ao meu “leito”, acabei por conhecer a Anja, uma simpática russa que me convidou para ir beber um copo com os seus amigos. Por qualquer razão, a Anja insistia que eu era Espanhol, dizendo-o a toda a gente que encontravamos. Em princípio, não haveria qualquer problema neste equivoco, tanto mais que estou bem longe de ser nacionalista ao ponto de me poder sentir de algum modo ofendido com a confusão. Mas acontece que a Espanha acabara de eliminar a Rússia do Campeonato da Europa. Logo, não era propriamente a melhor forma de ser apresentado a Russos manifestamente já com uns valentes copos a mais... Pela primeira vez, confesso que tive algum receio. O Russo é uma língua fechada, com uma pronuncia muito agressiva. A completar o quadro, os Russos não são um povo que gosta de “esbanjar” sorrisos. “Nós Russos não sorrimos quando as pessoas o esperam, mas apenas quando realmente nos apetece fazê-lo”, dissera-nos a Ksucha, que conhecemos em St. Petersburgo. A vodka não não costuma suavizar esta sua faceta, pelo que... Como sempre, a maioria estava apenas na brincadeira, mas os 2 ou 3 que não estavam foram suficientes para me colocar em sentido. Umas palavras mais exaltadas, inclusivamente um punho levantado num misto e ameaça e desafio, mas ainda assim lá consegui manter a calma, resistir às provocações e colocar-me sob a asa protectora dos mais simpáticos o mais rapidamente possível.

Olhando para trás, ainda não consegui perceber se o facto de estar completamente sóbrio (tinha ainda intenção de conduzir mais uns km naquela noite) que me acabou por me salvar ou se, pelo contrário, me colocou naquela situação. Num cenário normal, esta dúvida seria completamente absurda. Mas não aqui. Mantermo-nos alerta e conscientes do que se passa à nossa volta é, obviamente, muitíssimo importante. Mas, por um lado, eu estava claramente fora daquele quadro, o que nunca ajuda a uma integração fácil e despercebida. Por outro, este é o típo de situações que 99% das vezes são resolvidas com uma rodada de vodka e um Nasdarovia a plenos pulmões.

De qualquer modo, por algum motivo não me senti confortavel o suficiente para me deixar ir na onda, como quase sempre me sinto. Por isso, segui o meu instinto e retrai-me um pouco. Provavelmente perdi apenas mais uma bela night out. Mas pelo menos aqui estou inteiro a contar-vos as peripécias de uma que saiu ao lado.

Escrito por: TMA & Le Deuch, 06:12:40 | Comentários(459)
Segunda, 30-JUNHO-2008
Promessa Quebrada
Nota prévia: por manifesta falta de tempo, não tive oportunidade de escrever esta peça nas duas habituais línguas. Desta feita, optei pela língua mais universal. Peço desculpa, mas a Russia não me dá descanso

Indeed, we haven’t been stopping daily to write down our everyday adventures (almost better to day, everyhour ones). But if you realise only tonight we managed to sleep for over 3/4 hours since our last post, I believe you will all understand why we finally get back to our writing.

Nonetheless, this past week won’t go unnoticed. It could never! Well, I must confess some parts will have to go unnoticed, but that’s a all different story. This, time to rewind a bit, going even further before our last post. Back in Finland, therefore.

Finland

More than going back to our 17th country, we go back to the company of our hosts. Time has been scarce, way too scarce. Many are the things I’ve liked to have done and didn’t have the chance to. Probably on the top of them all is to give a proper word of gratitude to all those we came across and played a key part in our journey. We have visited a handful of amazing cities on our way, which certainly create the sight and the setting. But the countless unforgettable moments, those we due them all to the people we met along the way.

Riikka and Kalle stand as a perfect example. We met back in 2001, as well in Helsinki, during a seminar / law school Riikka organized and I’ve attended. Kalle immediately became dislikes by all the foreign males attending the event, as he was dating the most beautiful girl for the Organising Committee. But eventually the friendship prevailed

The relation with this two is, at the same time, very hard and very easy to explain: impossible to understand exactly why, but they are these rare kind of friends I am somehow sure will stay for life. They thought me pretty much everything I know about their country and the finish (in great extent as well the Nordic) culture and way of being, the majority of the times even without them noticing they were doing so. The first lesson was that it’s impossible to run from your own routes: anytime we meet, not matter how much I try (and believe me, I used to try!), I would always end up arriving late. Wrong meeting point, wrong timezone, I am bound to play the southern stereotype! The second, and most important: its quick to conquer the Fins politeness, but it takes quite a bit longer to conquer their friendship. In my case, it took a second presence at the Law school and some Portuguese sausages on fire. Right Kalle?

So you can realise the achievements of these two in teaching me the Finish way: I should be one of the few south Europeans who can put the words naked, sauna, sixty year old people, Viking looking guy, bath on the lake, wave at the boats and daylight into a perfectly normal waking up scenario

I just hope it won’t take so long for us to meet up again!

 
Vyborg

I have already told you about my first hours in this city. The original plan was a simple stop by, but the achievements of the Russian National football team kind of changed our plans.

So, the short sightseeing session turned into two very different, but equally enjoyable and surprising nights.

After the long night (and morning…) out, we took Sunday easy. But of course, the eurocup’s match of the night couldn’t be missed. While watching Spain defeating Italy, we met two young couples (surprise, surprise, as well already married) and started chatting. A couple of beers after and time to be introduced with a so far new side of the Russian generosity: as soon as they knew my plan was to sleep in the Deuch, they insisted me to sleep over. My sincere thank you for a hospitality I can only classify as surprising, to say the least.

 
St. Petersburg

Finally, we make it to Russia’s former capital and current second biggest city. The way there, or, better saying, the arrival, was quite a story. We were supposed to be about 40 km away from the city, but suddenly, after a deviation, there we are in a big city. Are we there yet or did we got lost on the way? Along the way, some of our skills grow stronger. One of those skills is the ability to find the centre of the cities we are in. Even though we have no maps with us. When the European shape of the city started to take place, there was no doubt where we could be.

St. Petersburg is an amazing city, one of the most amazing we visited so far. To start, has little, if any, resemblances with all the other cities in the country we know, though it feels 100% Russian. Full of history, a vibrating young and international atmosphere sid, e by side with a strong Russian identity. I highlight two spots, which antagonism only highlights the core of St. Petersburg. The Ermitage and the Dacha. The first, a world class museum, with an impressive, impressive display of all kinds of plastic arts and a collection that can easily look eye to eye with any other museum in the world. Both in quality (name any of the all time artists from renaissance to impressionism) and quantity (if we were to spend 1 minute with each of the pieces we have in display, your family was to see you only in 11 years told us one of the many museum’s caretakers).

 
  
For last what conquered us the first: Dacha. A legendary bar, with a doggy underground atmosphere and where one only stops dancing to fall a sleep on the sofas. But this, obviously, quite late and a lot of Vodka shots afterwards. I would say a place not to be missed by any visitor, but unfortunately, we were one of the last ones having the chance to experience it unique spirit. The bar’s street will be closed tomorrow and suffer a radical renovation. The local government plans are to build a business centre, which means a death certificate to the many cool doggy bars of the area. As I am writing you these words, Dacha’s last party should already wild. Today with quite a particularity: at the end of the night, the place is to literally be trashed down! We just wish we could be there….
 
   
One last note about the city: our two English buddies, Gary and Peter. We arrived in town and in our hostel almost at the same time. After a chitchat over dinner, Dacha (what else would break the ice and set the tone for a great and rather crazy time spent together. Not the last time you will be hearing from these two!

Almost 10 pm, time to stop writing and enjoy a bit more of Moscow, now already by nightfall. We’ll finish this update tomorrow!

Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:56:49 | Comentários(66)
Quinta, 26-JUNHO-2008
Welcome to Russia
45 dias depois de partirmos do Porto, começa finalmente a viagem! Agora sim, a aventura está na estrada. Se é que se pode falar em estrada por estas bandas.

Dia 21 de Junho de 2008, cerca das 22:00 horas locais. Enquanto o grande Lu´ss certamente celebrava o seu casamento, nós partíamos de peito aberto para a Mighty Russia! Para trás, um mês e meio de autentico passeio. Viagem para meninos. Sim, porque não se pode sequer falar em viajar quando a coisa não envolve passaporte!

Mas voltemos onde estamos: a Rússia! Não que precisemos de o repetir muitas vezes, pois tudo à nossa volta insiste em nos relembrar que aqui estamos. As estradas que o deixam de ser, o alfabeto que nos ultrapassa, um Holandês virado herói nacional no dia em que o país abateu a Laranja Mecânica, o surpreendente calor das pessoas, a odisseia em que se transformou cada simples refeição. Mas, sobretudo, sentirmos que, menos de 24 horas depois de passada a fronteira, a experiência está já tão cheia que pela primeira vez não restou alternativa a parar para a esvaziar neste post.

Comecemos pois pelo início: a fronteira. Ao 18º país, a palavra ganha finalmente significado. (nova interrupção para o enésimo russo completamente bêbado e proporcionalmente simpático que nos interrompe a escrita). O própio verde da floresta filandêsa escurece a cada km que nos aproximamos da Rússia. Sou por natureza, uma pessoa calma e relaxada. Mas foi impossível não sentir o friozinho na barriga. Num instante, vêmo-nos actores de um filme cujo guião está escrito numa língua e alfabeto que desconhecemos. Só há uma solução: to go with the flow. Se toda a gente para o carro e sai com o passaporte na mão, deixo o Deuch, pego no meu passaporte (acabado de chegar) e sigo a manada. 5 minutos depois, recebo pela primeira vez um carimbo de um país da EU e percebo finalmente o porquê do ar incrédulo do guarda fronteiriço. Ainda estamos na Finlândia: o meu inglês tarzânico era escusado. Se prova fosse necessária, aqui a temos: estamos sob stress.

De volta ao carro, a pressão a adensar. Agora sim, vamos entrar na Rússia. Um km adiante, uma primeira barreira. Todos os carros à nossa frente tinham passado, mas para nós a barreira desce. Dois militares russos, com pouco mais de 18 anos, correm em nossa direcção, de sorriso aberto. Mais uma vez, vítimas do curiosity control. Finalmente, o Tarzan em mim começa a mostrar-se útil. “Portugália, da!” “Vladivostok? This car?”. Fica-nos ao menos o consolo da alegria que esta frase sempre provoca em quem a profere. Permissão para prosseguir. Mas, é isto?! Já está?! Claro que não. O wishful thinking tem a sua força, mas nem tanto. Um km mais e agora sim, o controlo fronteiriço. Barreiras desnecessárias, porque as duas oficiais da alfandega são literalmente de fazer parar o trânsito! Depois do típico russo bulachudo e com o moreno à vodka (aka rosadinho nas bochechas e no nariz) e da senhora mal encarada que verificou o meu passaporte, finalmente preste a receber o nosso silencioso Welcome to Russia.

A parte do passaporte era fácil: basicamente, verificar o visto, preencher o migration card, os carimbos da praxe e toca a caminhar para o guichet seguinte. Agora sim, é a sério: a Alfândega. Sobretudo num pequeno carro atafulhado de gadgets e com dois caixotes com o mechandising oficial da aventura (por falar nisso, uns belíssimos polos/t-shirts dos quais se poderão facilmente tornar orgulhosos proprietários, dando uma pequena ajuda à nossa sagaJ). Pomos o nosso melhor sorriso para atacar a esperada carranca e... Hei lá! Um sorriso lindíssimo, um corpo escultural e um inglês com aquele típico sotaque de leste com um no problem na ponta da língua. Sentada logo atrás, imperturbável pela imensa fila cá fora, uma outra igualmente bela guarda alfandegária, tranquilamente folheando uma revista. Para regalo da nossa vista, o procedimento na alfândega levou um bocadinho mais de tempo. Para além dos formulários, havia que comprar o seguro para o Pequenino (hilariante o mistake in document, written 29 horse power...how many horse power? Só mesmo quando virei as costas e mostei a fotografia do Deuch estampada no pólo o registo se tornou credível aos seus olhos) e enumerar os bens mais valiosos que trazemos connosco. Pelo meio, sempre que me dirigia ao Deuch, um militar perguntava se já podia inspeccionar a mercadoria. Hum, este já se está a prepara para a gasoza..., pensei. Cerca de 15 minutos e toda a papelada estava tratada. Pela primeira vez, um certo desencanto quando ouvimos as palavras all clear, tentando a todo o custo imaginar uma qualquer outra burocracia que que nos desse 5 minutos mais daquele belíssimo sorriso.

Momento da verdade: a inspecção. O tal militar surpreendentemente não se aproxima, ninguém quem possamos seguir...que fazer? De volta ao Pequenino (pormenor que nos escapou: depois de umas horas de estrada, pô-lo funcionar era sempre um filme, com incontáveis tentativas e muitos rateres à mistura...), arrancamos até à barreira e esperamos que alguém se aproxime. Ok, foi-se a beleza, as formas esculturais, mas ficamos com o sorriso. O que nestas circunstâncias já não é nada mau. O oficial de serviço estava deleitado: fez questão de abrir todas as portas, mas sobretudo para ver o Deuch, não tanto o que ele transportava. Pergunta sobre o caixote no banco de trás, percorro uma última vez o discurso tantas vezes ensaiado e ataco: t-shirts to...imediatamente surpreendido por um Da, da (Sim, sim, ok). Um último olhar encantado enquanto caminha para a barreira e um sorridente go, go. Avançamos, incrédulos. That easy? Foi preciso chegarmos até à tradicional bomba de gasolina da fronteira para gritar em plenos pulmões: ESTAMOS NA RÚSSIA!!! ESTAMOS NA RÚSSIA!!! A segunda etapa desta nossa odisseia está finalmente na estrada!

Entretanto, eram já 10.30 locais, ou seja, o duelo entre o nosso mais recente país de acolhimento e a Holanda estava prestes a começar. Resistimos à tentação do hotel junto à fronteira e avançamos até Vyborg, primeira cidade digna desse nome no nosso caminho e local vivamente recomendado pelo Kalle e pela Riikka, meus anfitriões e, sobretudo, grandes amigos filandêses. Estradas completamente desertas, 2cv a todo o vapor para perder o mínimo possível do jogo e... um novo Welcome to Russia, um nadinha menos simpático contudo. À entrada da cidade, ao descermos de uma ponte que liga duas das inúmeras penínsulas desta região, um carro da polícia parado na berma liga as luzes e um polícia sai apressado do carro dando ordem para encostarmos. Carta, livrete e é-me dito para sair e acompanha-lo até ao seu carro. Uma vez chegado lá, um oficial mais velho, tranquilamente sentado no banco do condutor, aponta para um sinal de trânsito indicando um limite de 40 km/h enquanto nos mostra o radar indicando que seguíamos a ..77km/h. Um silencioso brilhozinho nos olhos de orgulho Boa Pequenino, disse para mim mesmo. Comecei pelo tradicional me no understand, abordagem claramente muito batida. O agente rapidamente começou a folhear o código da estrada para me explicar aquilo que ambos estavamos carecas de saber. Ok, não resultou, mas não nos deixamos ir sem luta. Look to car! Too old, little engine. Top speed is 60km/h. Impossible go 77! Resposta pronta: you going down! 300 Rubles (o suborno da praxe para evitar a multa). No rubles, just came to Russia. No problem, €10! Eu não me fico: no money. And impossible 77. Top speed 60! Only 29 horse power. 5 minutos de conversa de surdos, um verdadeiro jogo de paciência. Quando estava já a tentar engendrar como passar um dos nossos polos sem dar muito nas vistas para resolver a disputa, um encolher de ombros e um ok, ok, go, enquanto me fazia sinal com as mãos para estar atento aos limites de velocidade. Enquanto caminhava de volta para o Deuch e via o russo do Subaru Impreza a desenbolçar os 300 Rublos, repetia para mim mesmo, com ar sereno mas um brilhozinho nos olhos agora ainda mais intenso, o imenso privilégio que é ser proprietário da minha latinhaJ
Finalmente, o jogo. Numa cidade deserta, não foi difícil sermos conduzidos pelo ruído até ao melhor spot para assistir à partida. Uma pequena esplanada, construída propositadamente para o efeito, completamente apinhada. Impossível deixar de pensar quão mais divertida será a minha noite se a Rússia ganhar!!! Duas cervejas depois, já fazia jus à incontáveis vezes que fui chamado de Russki quando andava pelo báltico. Tinha de qualquer forma de demonstrar, acima de qualquer dúvida, que estava a torcer pela equipa da casa, pois nestes ambientes um estrangeiro è automaticamente visto como o inimigo. Mas nem tenho de me esforçar muito. A Rússia descasca a laranja com uma classe contagiante e está instalada a loucura. Abraços, gritos, a vodka começa a rodar e quando descobrem que aquele carro é meu a garrafa passa definitivamente para a minha mão. Tenho então a primeira lição da noite: no grupo de amigos (pelo menos em todos aqueles com que me cruzei) a pessoa que melhor falar inglês é sempre a rapariga mais gira e mais simpática, mas também casada e mãe de filhos. Aliás, parece não haver solteiros acima dos 24/25 anos... Não que o facto impeça os restantes de me falarem num Russo fluído, como se eu estivesse a perceber tudo. Seguimos em bando até à Praça Vermelha da cidade, ponto alto das celebrações. Mas aparentemente, falta qualquer coisa. Num instante, dou por mim num taxi com dois russos que não falam puto inglês. Mas neste contexto basta abrir o vidro, por a cabeça de fora e começar a gritar RU-SSI-A, RU-SSI-A! Todos me seguem e está quebrado o gelo! 3 nightshops mais tarde, passam-me para a mão umas incógnitas caixas de papelão. De volta à Praça Vermelha, finalmente a resposta: fogo de artifício!
Tudo isto com uma particularidade: desde a Estónia que praticamente não há noite. O sol desce apenas por um par de horas, o que nos cria a estranha ilusão que o final de tarde é eterno. Aparentemente, as celebrações também. Vodka e Pivo (cerveja) a rodos, já ninguém de encontra. Mas também já ninguem se perde! A festa está por todo o lado!
Acordo no carro, ao som do rádio. Merda! A bateria! Sem abrir os olhos, retiro o painel e aconchego-me melhor à travesseira. Certamente não era um problema para resolver a umas madrugadoras 10.30 da manha. Por volta da 1 então, um par de horas mais fresco, confirmamos o inevitável. Não há bateria. Mas também não há drama. O segundo carro a quem acenamos com os cabos dá meia-volta e aponta ao Deuch. Um jovem casal (mais um), muito solícitos e super despachados. Em menos de 5 minutos, o problema está resolvido e foi apenas a muito custo que conseguimos que aceitassem uma das nossas t-shirts como agradecimento. Mal arrancamos, um autocarro que segue à nossa frente não para de buzinar e fazer sinais. À primeira oportunidade, coloca-se ao meu lado: o primeiro castiço que conheci logo no restaurante, marido da giraça que falava inglês e que acompanhei na busca pelo fogo de artificio, alegremente ao volante de um autocarro de carreira!
 
Finalmente, aqui estamos. O Deuch a descansar à sombra e eu tranquilamente sentado numa esplanada à beira mar, debaixo de um saboroso sol, ainda incrédulo que tudo isto aconteceu em menos de 24 horas. Pelo meio, algo que nos vai acompanhar daqui em diante: o simples pedir de uma refeição tornou-se uma verdadeira aventura! As empregadas são amorosas, mas nenhuma fala outra coisa que não russo. À primeira, um golpe de sorte: um marroquino que domina o Russo e o Espanhol surge em nosso auxílio. Mas à segunda, um tiro no escuro e pimba, grande pontaria! Sai-me um prato à base da única coisa no Mundo que não consigo comer: fígado LOL. Salvou-se a salada!

A viagem começou! O ritmo promete agora ser verdadeiramente alucinantes, para o bem e para o mal. Começamos claramente numa toada positiva. Nem sempre assim será, mas essas são as regras do jogo. E que incrível jogo este! O jogo de uma vida!

P.S. – Nesta fase da nossa viagem, o acesso à internet passa a ser uma incógnita. Contudo, assumimos o compromisso de, todos os dias, nos sentarmos uns minutos e escrever, ainda que umas breves linhas. Pela amostra, vai valer a pena o esforço!

Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:58:08 | Comentários(961)
Quarta, 18-JUNHO-2008
O engenhoso Sergei, com o Sr. Magalhães a salvar o dia!

 

Nada como uma pequena aventura com sotaque eslavo antes de nos aventurarmos na Mighty Russia!

Desde o início que planeávamos fazer uma revisão antes de iniciarmos a nossa etapa Russa. Surpreendentemente, e apesar do pobre, to say the least trabalho dos mecânicos da citroen que fizeram a última revisão ainda no Porto (motor cansado, rateres ainda antes da fronteira espanhola, peças soltas por todo o lado, consumos nunca antes vistos, entre muitos outros erros de escola primária...), o Deuch apresentou sempre uma alma e uma performance extraordinárias. Como se regenuvescesse a cada km! Ainda assim, mais de 9.000 km em pouco mais de um mês e a perspectiva da mais dura das etapas que teremos pela frente são razão mais do que suficiente para que o nosso pequenino merecesse uns mimos.

Ao longa das últimas semana, procuramos na internet o contacto de alguém com conhecimento sobre 2cv num dos países do Báltico ou parte ocidental da Russia. Foi assim que entramos em contacto com o Sergei, estoniano de origem Russa, orgulhoso proprietário dos dois únicos citroen DS em Tallinn, carros que praticamente reconstruiu pela sua própria mão na sua garagem. Desde o primeiro email, o Sergei demonstrou-se entusiasmadíssimo com o nosso projecto e, sobretudo, com a possibilidade de explorar um clássico citroen ainda praticamente desconhecido para si.

A primeira parte da nossa aventura: o Sergei tinha-me recomendado um mecânico em Talin, aparentemente o único na cidade com alguma experiência em clássicos franceses (não esquecer que até à queda da União Soviética, não existia por estas bandas um único modelo ocidental em circulação). Todavia, este mecânico estava de férias. Predispôs-se a vir até Talin para dar uma vista de olhos ao Deuch...apenas se o tempo se mantivesse frio e chuvoso. Obviamente que aquela sexta-feira haveria ser o único dia solarengo de toda a semana...

Mecânico na praia significava eu e o Sergei na oficina. Na sexta tivemos a oportunidade de utilizar a garagem do veraneante para dar uma vista de olhos ao motor e chassi, analisando tudo aquilo que necessitaria de ser reparado. No dia seguinte, já na garagem no Sergei, tempo de pormos mãos à obra. Tempo da verdadeira aventura.

Nas primeiras horas da tarde, fui mero espectador de umas das pessoas mais engenhosas que alguma vez conheci. O Sergei é, literalmente “pau para toda a colher”. Tubos soltos, parafusos perdidos, correntes de ar no habitáculo, para tudo ele tinha solução. Just let me think 5 minutes, let me think 5 minutes, sempre com o seu sotaque de leste. À medida que a tarde ia passando, o público em volta do Deuch ia crescendo. Primeiro, a família do Sergei, todos curiosos por conhecer the crazy portuguese e o carro sobre o qual o Sergei não parava de falar. Mais tarde, 2 amigos e também amantes de clássicos, que ficaram connosco até ao final da... noite.

Sim, noite. Quase madrugada! Com todos os tubos e parafusos no sitio, habitáculo isolado, luzes fundidas substituídas e todos os problemas eléctricos solucionados, tempo de irmos um pouco mais afundo. Do ponto de vista mecânico, tínhamos duas preocupações principais: um ruído estranho nos travões e o facto de, quando na estrada por um par de horas, demorar sempre algum tempo a re-iniciar o motor. Rapidamente verificamos que as principais peças do sistema de travagem estavam num surpreendente bom estado. O ruído tinha a sua origem na quase completa falta de líquido dos travões, o que foi prontamente solucionado. Aventuramo-nos (a palavra não podia ser mais correcta) então no motor propriamente dito.

Primeira chamada para o Sr. Magalhães, o meu mecânico (não os referidos artistas da citroen, mas quem realmente percebe da poda), para perguntar como chegar até aos platinados. Primeira, mas não a última chamada! Retiramos o sistema de ventilação, abrimos a caixa dos platinados, alguns testes e, aparentemente, tudo em ordem. Voltamos a recolocar tudo no sitio...mas o motor caput... não havia faísca que desse sequência à ingnição...UPS!

As 3 pobres criaturas, incansáveis como sempre, mas agora completamente perdidas. Aparentemente não haviam mexido em nada. Logo, não deveria haver qualquer decorrência...de nada. Eles deram voltas e mais voltas, tentaram tudo e mais alguma coisa, inclusivamente por mais gasolina no carro. Mas nada. Contudo, ainda que não perceba patavina sobre carros, a origem do problema pareceu-me obvia desde o início: se o problema era electríco, se apenas tinhamos mexido em uma das partes electricas do motor e se o motor estava a funcionar antes de o termos feito, a origem podia apenas ser uma. Basicamente, o aplicar da lógica dos médicos em face dos sintomas de um paciente: começar pelas possibilidades mais simples e lógicas.

Tempo de finalmente assumir o controlo das operações e de nova chamada para o Sr. Magalhães. Impressionante, no mínimo: mesmo sentado à mesa em sua casa, conseguia ver o motor do nosso Deuch melhor do que qualquer um de nós os 4, que o tinhamos ali diante dos nossos olhos. Têm de tirar a ventoinha, com uma chave 14. Depois duas pancadas de lado para que a ventoinha salte. Tirar os outros 2 parafusos com uma “11”, limpar levemente os platinados com uma lixa e o problema deve estar resolvido. Qualquer coisa, ligue! E liguei, nem passados 5 minutos, mas apenas para dizer que o motor já funcionava como novo! A explicação do Sr. Magalhães aparentemente não convenceu muito os meus 3 companheiros, mas convenceu quem interessava: o próprio motor. De facto, o conhecimento e experiência não têm preço.

Como o video bem ilustra, depois de todas estas peripécias, ninguém se arriscaria a tocar novamente um dedo que seja no DeuchJ

Passava já das 11.30 da noite quando, com mais de 3 horas de atraso, me pude finalmente juntar à festa de anos da minha amiga Pille. Sim, lê-se exactamente como estão a pensar. Estive na Festa da Pille! Apesar do curioso nome, uma grande festa, com muita animação, muita música estoniana (nem sempre com as letras mais animadas, reconheçamos) e, como não podia deixar de ser, com um pequeno toque Português. O vídeo é, uma vez mais, bem ilustrativo.

Venha dai essa Mighty Russia!
Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:58:36 | Comentários(73)
Quarta, 11-JUNHO-2008
Chapeus há muitos! Mas o meu...

 

Sozinho no bar do meu “hostel” em Riga, cidade onde acamamos de chegar, um sorriso de orelha a orelha que tem de ser partilhado. VIVA PORTUGAL!

Primeiro, a declaração de interesses. Nunca gostei do Scolari. Acho que em grande parte, motivado pela sua birra com o “meu” Baia (mistério que o jogo de hoje apenas veio adensar). Sempre o considerei fora de série do ponto de vista da psicologia de grupo, bem visível no modo como os jogadores que fazem parte do “Clube da Selecção” falam dele. Ou como, pela primeira vez, um seleccionador conseguiu unir o pais em torno da sua equipa. No entanto, do ponto de vista táctico, sempre foi um enorme flop. Viveu ás custas do fabuloso trabalho que o Mourinho desenvolveu no FC Porto, em especial com a construção daquele triângulo ímpar :Costinha, Maniche, Deco,!

Foi um flop, até ao momento em que, contra a minha opnião (não que ele a conheça, claro J) se decidiu por deixar o Maniche de fora dos convocados. Ninguém sabe o que irá acontecer. À hora que vos escrevo não se sabe sequer ainda se Portugal se irá ou não qualificar para a segunda fase. Mas independentemente do que se passar daqui para a frente, tiro o meu chapeu ao “Sargentão”. Depois de uma qualificação no mínimo sofrível, que Equipa ele nos apresentou nestes dois primeiros jogos. Uma equipa que vai muito para além dos seus já conhecidos jogos psicológicos. As alas são nossas, com os jogadores que aí temos. A defesa, ao seu nível (sobre o Ricardo já falei, por isso apenas referir que o Petit, sobretudo do ponto de vista defensivo, ainda está longe de me convencer). Mas o modo como constantemente consegue ganhar o meio nos seus movimentos ofensivos tem demonstrado uma equipa de Portugal muito evoluida tacticamente.

O meu chapeu vale o que vale. Mas o orgulho de, 4 anos depois do Euro, as voltas e contra-voltas da minha vida me levarem de novo a vibrar com as nossas vitórias bem longe do meu Pais, that is simply priceless! (não consigo deixar de piscar o olho a potenciais patrocinadores, já me está no sangue. LOL)

VIVA PORTUGAL, CARAGO!

 P.S. - basta de dizer que tenho 27 anos e toda a gente perceber 37. A barba vem "a baixo" hoje. mas fica desde já a promessa. Quando Portugal ganhar o Euro, o "arbusto" que actualmente ocupa o topo da minha cabeça vem abaixo. Sem deixar rasto!
Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:59:15 | Comentários(280)
Sexta, 06-JUNHO-2008
Um imenso Mundo, uma pequena aldeia global

 

Uma das coisas que mais nos surpreendeu ao longo da preparação deste projecto foi a percepção de quão grande é o Mundo. Ter por e.g., uma noção aproximada do tamanho da Rússia (a verdadeira teremos dentro de umas semanas), que se estende praticamente a toda a largura da Europa e Ásia, atravessando 8 fusos horários. Ou da China, que pese ter cerca 20% da população mundial, ocupa apenas o lugar 54 na tabela de países com maior densidade populacional. Mas penso que o mais surpreendente foi perceber que, não obstante estarmos dispostos a dedicar 8 meses das nossas vidas a viajar apenas por dois continentes, não teremos ainda assim tempo de visitar 1/5 dos locais que pretendíamos. Ok, confessamos que gostaríamos de visitar praticamente todos.

O mundo é, de facto, imenso, quase infindável, uma dimensão que certamente apenas a Rússia nos irá cabalmente demonstrar. Mas eis se não quando, chegados apenas à umas horas a Varsóvia, caminhando em plena hora de ponta por uma das avenidas mais movimentadas desta cidade que visitamos pela primeira vez, ouço gritar “Tiago, Tiago”! Confesso que a princípio nem reagi. Sentia-me ainda um corpo estranho numa multidão aparentemente tão orientada no seu sentido de vida, sentido e vida que ainda de todo partilhava. Como poderia ser eu o alvo daquele entusiasmo? Mas era! Para meu espanto, vejo o meu amigo Julian, espanhol (dos verdaderos) de La Coruña, companheiro de outras andanças internacionais e agora director de recursos humanos da Inditex (identificarão mais facilmente como a empresa detentora das marcas Zara, Mango, Pull & Bear, etc) a correr por entre os carros, de sorriso e braços abertos. Tudo isto enquanto a sua colega polaca nos olhava no carro, de olhar perplexo. Mas como é que estes dois se podem conhecer?! Um breve reencontro, que teve de tão inesperado quanto agradável. E assim o imenso mundo se transforma, ainda que por um instante, numa pequena aldeia global.

Na verdade, este quase mês de estrada tem moldado a nossa noção de distância. Os preparativos podem ter alargado a nossa noção de Mundo, mas estes quase 6.000 km fizeram da “nossa Europa” um pequeno e aconchegante lugar. A prova-lo a naturalidade com que, em caminho entre Budapeste e Varsóvia, fazemos um desvio para tomar com café a Kosice, com a minha sempre simpática e bem disposta amiga Vicky. Afinal de contas, era logo ali.
Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:59:50 | Comentários(188)
Domingo, 01-JUNHO-2008
Uma Francesinha em Berlin

  
 

Muda a nacionalidade, muda o cenário, mas um resultado ainda mais delicioso do que o filme original!

O tempo é demasiado curto (até à entrada na Rússia, o ritmo de viagem vai continuar acelerado) e a opção em cima da mesa é quase sempre a mesma: ou viver os locais por onde passamos com intensidade, ter imenso que contar e pouco tempo para o fazer; ou trocar o que contar pelo tempo para o fazer. Depois de uma passagem pela Dinamarca num registo mais tranquilo, impossível resistir ao chamamento de Berlim.

Um final de manha passado num delicioso lounge ao ar livre, uma tarde de dolce fare niente numa ilha de puro verde bem no coração de uma das maiores metropoles da europa. Um dia onde fomos escravos de um surpreendente Sol que faz as delicias dos centro e norte-europeus.

Então e o tal toque francês? Bem, esse está desde logo sempre garantido pelo nosso Deuch, que com este fantástico tempo ganha ainda uma outra magia. Mas hoje houve mais, muito mais: uma belissima francesinha, a matar saudades dos incomparáveis sabores da cozinha Portuguesa. Sò faltou mesmo a linguíça, coisa improvável por estas bandas. De resto, nhamy, que delícia!!!

O meu amigo Giovani (a quem tenho de agradecer a hospitalidade bem latina), não obstante o seu forte porte, é que não consguio passar de um quarto da francesinha dele! Mas acabou de acordar com um sorriso de orelha a orelha, a dizer: “I hear my francesinha calling me”. Que saudável forma de começar o dia!

Terminamos por aqui, porque quero chegar à cozinha ainda a tempo de dar umas dentadasJ

Beijinhos e abraços, respectivamente,

TMA & Le Deuch

P.S. – Deixamo-vos com a reportagen na TV Brussels. A imagem não tem a qualidade dos videos realizados por nós, mas não está mal de todo lol. Falando a sério, muito porreira.
         Ver Aqui
 
Escrito por: TMA & Le Deuch, 12:00:51 | Comentários(468)
Quarta, 28-MAIO-2008
Contradições...
 
   
Bruxelas encerra a suprema contradição desta viagem: quando o que encontramos é, simultaneamente, o que queremos estar a encontrar e que não queríamos ter encontrado.

Vamos lá tentar decifrar este aparente enigma, tarefa com a qual qualquer jogador de futebol não teria grandes dificuldades: esta viagem é para ser “jogada”, vivida, “jogo a jogo”, dia a dia, cidade a cidade. È uma busca constante, uma conjunto de continuas batalhas pela conquista de espaços e pessoas. Um processo incessante, construído de momentos efémeros e em que nos precisamos de provar ao mundo em redor, mas sobretudo a nós mesmos, praticamente em cada instante. O Deuch não fará mais um km porque já fez mais de 4.000. Esses milhares já conquistados dão-lhe força e confiança para os muitos mais que ele tem pela frente. Mas cada km de estrada continua e continuará a exigir-lhe a mesma demonstração de pujança e energia.

Bruxelas, ela própria uma infindável contradição em si mesma, conseguiu uma vez mais ser generosa e surpreendente. Cada vez que re-visito esta cidade se torna mais evidente como é mais fácil agora vivê-la, explora-la, do que era quando ali vivi. Talvez isso potencie ainda mais a ânsia de aproveitar cada momento já tão inata em mim.

Os dias ali passados foram sem dúvida um espelho dessa mesma ânsia: intensos, preenchidos, variados, surpreendentes. Mas acima da tudo, curtos. Conseguimos chegar à radio antes mesmo de chegar à cidade, o que haveria de dar o mote para toda a estadia. Com a festa, a imprensa, e sobretudo o “passa palavra”, conseguimos por o projecto a ser falado na cidade. Importante, porque ainda há bastante dinheiro a angariar. Tive finalmente tempo para me sentar com calma e actualizar parcialmente a minha vida. Mas são, como sempre, as pessoas que nos marcam, que tornam uma cidade num local verdadeiramente especial. A Marta Valinas, o Bart e os seus amigos que conhecemos logo na primeira noite, os tugas mais curtidos do Parlamento (que entre Joões e Tiagos, só se salva um PedroJ - estou à espera das fotos e do vosso texto!), o pessoal da ELSA House, a peculiar e imutável “fauna” do “meu bairro”, o auto-intitulado grupo das belgas mais divertidas, animadas e menos belgas de toda a cidade (só para terem uma ideia, qualquer uma delas me faz corar de vergonha sempre que o tema são viagens...).

Desta vez houve inclusivamente Sol. a aquecer uma tipicamente cinzenta e chuvosa manha de domingo. Ironia das ironias: Sol., a última coisa que poderia imaginar vir a ter saudades de Bruxelas.

Depois de estendermos a nossa estadia para lá do razoável, o refúgio num velho hábito. Colocar as malas no carro, saco cama preparado para a noite que se adivinha algures na estrada e arrancar sem rota marcada. Só que desta vez, com a certeza de ter connosco a almofada errada...

È este o grande desafio que temos pela frente, o único verdadeiro receio com que partimos e, ao mesmo tempo, certeza que esta busca virá um dia a ter um fim. Estamos ainda plenos de energia, a magia da perspectiva de todo o Mundo e todas as aventuras que temos pela frente continua intacta e a fazer os nossos olhos brilhar ainda com mais intensidade. Mas momentos como estes fazem-nos ter consciência que a nossa força interior não é inesgotável, não é eterna. Há a reconfortante certeza que um dia a busca irá dar lugar à contemplação, ao aprofundar de raízes. Até lá, temos ainda 7 meses e diversos outros planos de viagem pela frente. Mas o desafio está agora a descoberto: até onde irá a nossa força interior?

Voltamos à nossa contradição: é o sucesso da busca que, aos poucos, a acaba por matar, acaba por a esvaziar da sua razão de ser.
 
P.S. - mais uma das prometidas novidades: 2 vídeos com o privilegio da minha perspectiva ao volante. Provavelmente os dois momentos de condução mais sublimes até ao momento. A qualidade é sofrível, mas espero que dê para ter um "cheirinho" mais presente da aventura.
 
 
Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:40:55 | Comentários(188)
Saturday, 24-MAIO-2008
Isa tem (finalmente) a palavra
Tal como prometido, a primeira novidade. Temos a honra de ter a minha grande Amiga (adjectivo manifestamente insuficiente para descrever o que ela representa na minha vida) Isabelle a inaugurar o espaço deste blog dedicado áqueles que se cruzam com a nossa aventura. Um prazer apenas ultrapassado pela sua companhia.
 
Como facilmente compreenderão, não tenho coragem de alterar uma vírgula, quanto muito traduzir. Seguem assim as palavras da Isa, na sua versão original.
 
 

Lyon, May 23rd, 2008

Bonjour tout le monde!

For the longest time ever, Tiago has asked me to write a note on one of his trips. Never was able to do so… until this morning. I don’t know, I have this good feeling… Must be the weather or something…

Whatever, here I am, facing my blank sheet, wondering what to write not to look stupid, or in lack of inspiration.

1, 2, 3,…

OK, spotlight on the keyboard.

Dearest Tiaguito,

Again on the road with the Deuch… Poor car! Once you bought her back in 1999, she couldn’t have guessed her destiny! And what an original and bright future it would be!

You passed by France (once again ;-) in Paris last week. Each time, as you said, it’s almost as we never left each other. Same jokes, same complicity, same flood of words (on your part!)…

It is always a pleasure though.

Each time I see you coming through France, the only part of your face I actually recognize at first are your eyes. Your beard is so huge each time I see you!!!

I wonder how you will look like coming back from Beijing…!

Ah, my dearest Portuguese friend, hopefully do I have only one like you!

What I really want to tell you today is that I admire you very strongly. And I do believe that it is by actions like yours that people like me can realize what my life is about. It makes me put my own life into perspective. Even if I could not involve myself in a project like yours – I am a too comfy person – I am mostly impressed because it takes a lot of courage and abnegation.

For this new challenge trip, I wish you all the best. The most wonderful experience that none of us would be able to deal with. You even chose a period which is very symbolic.

I do and will follow your tracks regularly and I am so proud of you.

To all of Tiago’s friends (around the world, could I say), I hope you share with me the pride whenever you tell people that you have this good Portuguese friend who is into this mad project: Porto-Beijing in 2CV for the Olympics.

From my part, their eyes grow wide and shine with a different light. Above all, I capture their attention and get almost systematically the same answer: for the positive ones: “Oh, I would love to do that!” – For the less positive ones (or maybe older as well): “Oh, I would have loved to do that!”

Yes, me too… But the luck is that I am doing it by proxy ;-) and I share a little of this amazing experience because I am lucky to have Tiago as my friend.

[“And if you want Tiago to be your friend too, here an amazing T-shirt and a unique cap for the modest price of XX euros!!! This is obviously the good time ;-) Don’t worry about your T-shirts, Babe! Next time you’ll come on the Champs-Elysées, even the cops watching the Arc de Triomphe will be wearing these and won’t bother you anymore but will ask you to be on the picture!!]

Lead well your trip, Tiaguito; I beg you: be cautious, and above all, have fun and bring back a huge load of great experience!!

Je t’aime très fort ;-)

Isa

Escrito por: Isabelle Ginet-Kauders, 12:01:37 | Comentários(310)
Quinta, 22-MAIO-2008
De volta a Bruxelas, de volta a casa
Duas semanas de distância entre a minha casa e… a minha casa. Escrevo-vos hoje de Bruxelas, na cidade e na casa onde vivi em 2003 e 2004. Um local que, apesar dos 4 anos passados, continuo ainda a poder chamar meu.

Bruxelas assiste impassível, inalterada, indiferente ao ritmo alucinante com que “recícla” a sua população. Esta é uma verdade particularmente “verdadeira” no meu bairro, Le Quartier Latin: o GB é ainda o supermercado de referência, o Breakfast Club contina aberto até que o pão acabe, continuo, a cada visita, a prometer ao tipo da Nightshop que é desta que lhe envio a fotografia que tiramos antes do meu regresso e o Patrone continua a saludar-me com uma garrafa inteira de Limoncello sempre que regresso à pizaria da esquina. Até as placas com o nome da rua que educadamente “pedimos emprestadas” no dia em que deixamos bruxelas continuam por substituir... Memórias de um ano fantástico, provavelmente o melhor vivido até agora. Contudo, 2008 já olha ameaçador para esse lugar de destaque!

Mas chega de olhas para o passado, ainda que sempre bom de recorder. Mas então o que é que temos feito nestes últimos dias? Desde o nosso último post, Bayonne, Paris, Londres e Bruxelas; muitos km de estrada, a oportunidade de revisitar grandes amigos, tantos momentos que mereciam a oportunidade de serem partilhados. Infelizmente, não temos tempo para passar tudo a escrito, nem vocês teriam paciência para escutar/ler tudo. Eis um novo desafio que esta aventura coloca diante mim: trabalhar a minha (até agora desconhecida) capacidade de síntese.

Começemos desde já então! Bruxelas, como sempre, revela-se uma surpresa muito agradável. Do nada e graças à enorme ajuda dos meus amigos Marta Valinas (também do agora nossa amigo comum Bart) e Thiago, conseguimos uma entrevista na FM Brussels (ouvir entrevista), uma outra para a revista Indigo temos uma outra ainda amanha para a TV Brussels (http://www.tvbrussel.be/). Para além de tudo isto, dentro de um par de horas teremos a nossa primeira festa internacional! Terá lugar na Maison du Peuple, um bar com muita onda situado em Saint Gilles, num edificio histórico recentemente recuperado ((http://www.maison-du-peuple.be/).

Como podem ver, temo-nos mantido bastante ocupados por estes dias. Ainda assim, fica a promessa de nos próximos dias, aproveitarmos esta excelente ligação à internet para vos trazermos mais notícias e algumas novidades!

Por isso, mantenham-se ligados!

Beijinhos e abraços, respectivamente,

TMA and Le Deuch
Escrito por: TMA, 12:02:32 | Comentários(69)
Quinta, 22-MAIO-2008
Dia 4 &5: Madrid - Pamplona

Depois de pela primeira vez gozarmos uma verdadeira noite (bem, noite, manhã e inicio de tarde...) de sono, saímos de Madris quando já a noite de Sábado começava a cair. De novo, mais tarde do que o planeado, mas assim o exigiu o enorme déficit the sono acumulado ao longo das últimas semanas.

A noite de condução não foi particularmente excitante: grande parte do percurso feito numa Autopista (básicamente, o que apelidamos por SCUT), mais rápida mas definitivamente mais aborrecida. A nossa intenção era seguir directamente para Pamplona. Contudo, conduzir por estradas secundárias tem as suas vicissitudes: quando o depósito começou a aproximar-se do fim, todas as estações de serviço no caminho estavam já fechadas. Impedidos de continuar, eis que surge um raro laivo de comodismo: em vez de me contentar com o banco do Deuch, procuramos por uma cama no primeiro Hostal com que nos cruzamos.

Voltamos à estrada ao final da manhã de domingo, € 25 mais pobres mas com energia redobrada. Não levou muito tempo a entrarmos em Navarra, com o verde a, passo a passo, começar a dominar a até então àrida paisagem. Cada vez que atravesso o país não consigo deixar de ficar admirado com a quantidade de zonas desérticas que podem ser encontradas em Espanha.

Ligicamente, não resitimos ao chamamento de um par de placas encontradas pelo caminho. Na primeira, um desvio de 15km para nos desiludirmos face a um Mosteiro como tantos outros. Mas na segunda, eis que nos deparamos com o ponto alto do dia e um dos pontos altos de toda a viagem até ao momento: a deslumbrante vila de Olite, com o seu sublime Palácio Real. Construído no século XV, foi a residêcia do Rei de Navarra até à união com o Reino de Castela, no século seguinte. Uma vila imperdível uma vez nas redondezas. Até lá, apreciem as fotos e façam uma visita a www.palaciodeolite.com.

Chegamos finalmente a Pamplona perto das 4 da tarde. O centro histórico desta cidade, mundialmente conhecido pelas corridas de e com os touros, era nesta tarde de domingo a perfeita antítise dessas loucas tardes de verão. Poucas pessoas nas ruas, todo o comércio praticamente fechado. Não destoamos: umas tapas, umas cañas e a ligação wifi para nos actualizarmos sobre o que se ia passando no mundo real.

Mas por volta da meia-noite, quando calmamante caminhava para me reencontrar com o Deuch, eis que dou por mim a seguir o rasto de uma música que ecoava pelas ruas estreitas e desertas. Afinal não era a noite que estava perto de terminar, mas apenas o tom tranquilo deste domingo. Dei por mim num bar cheio de estudantes Erasmus, eles que não parecem nunca estar dispostos a desperdiçar uma única noite desta experiência única. Graças a eles, lá pude compensar Saturday night out perdidaJ

Um par de horas mais tarde, finalmente o reencontro com o Deuch, para um processo já bem conhecido e que termina com ele ora debaixo de uma árvore, ora ensandwichado entre camiões.

Escrito por: TMA & Le Deuch, 12:02:05 | Comentários(59)
Quarta, 14-MAIO-2008
Um daqueles momentos...
Este é um daquelas cenários que não pode deixar de ser partilhado. Até mesmo pela contradição que essa partilha encerra: partilhar o meu completo isolamento.

Pais Basco Francês, perdido em plenos Pirineus numa Vila que há longas horas deixou já de ter qualquer sinal de vida. Tenho o original privilégio de ser a unica pessoa neste remoto, mas acolhedor parque de campismo. Uma lua bem alta que mergulha na escuridão quase completa, os barulho dos animais em plano de fundo, a doce voz da minha grande amiga Mariana a encher o cenário e a minha alma (sons de um novo projecto que não tenho dúvidas vai dar que falar), um silêncio de civilização quase completo.

O épilogo perfeito para um dia verdadeiramente intimista. Um dia que pretendiamos terminar no mar e nos fez perder na montanha. Um dia que pretendiamos de ligação directa e rápida entre o ponto A e o ponto B, mas que nos trocou as voltas (ou nós as trocamos a ele) e nos fez serpentear por todo o tipo de caminhos e não caminhos entre o A e um outro qualquer ponto, ainda por descobrir.

Um dia delicioso, merecedor de uma descrição que se esforce por lhe retirar o mínimo de “sabor”. Mas como de facto não há ainda sms que consiga preencher uma voz, nada pode acrescentar a este cenário idílico. Desligo-me então eu também do portátil, meu último lastro de civilização e partilho esta tranquilidade absoluta numa bela noite de sono. Por isso, ficam as crónicas de um dia verdadeiramente à imagem do Deuch para outras núpcias e deixo de ser a única voz desalinhada neste afinado coro de silêncio.

Um sopro dele (o silência) e desta paz,

TMA (hoje só eu, porque o “Pequenino” já há muito que dorme).
 
P.S. - Ainda que seja apenas uma maquete sem a qualidade que a voz da merece, partilho um dos sons que preencheu a noite e o silêncio. Mariana Zenha - Fotografia
Escrito por: TMA & Le Deuch, 12:02:56 | Comentários(1275)
Terça, 13-MAIO-2008
Dia 1 & 2: Porto - (Salamanca)- Madrid

Mais do que partir, fugimos! Por vicissitudes várias, vimo-nos forçados a adiar a partida, primeiro por 2 dias, depois apenas por mais 24h. Mais do que fazer as malas para 8 meses, pesa (e muito...) atar todos os nós que permitam suspender a vida por mais de meio ano. Mas a dado ponto, tornou-se claro que em vez de se irem dissipando, as pontas soltas como que se multiplicavam. Havia que traçar o plano de fuga, tarefa que deixamos a cargo da ânsia por finalmente partir que, lentamente, se havia apoderado de nós.

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Arrancamos assim quarta-feira, dia 7 de Maio, ao cair da noite. Com o plano de pernoitar em Madrid ameaçado, o objectivo passou a ser rolar tranquilamente até à primiera das nossas fronteiras (falo apena das físicas, claro) e aventurarmo-nos Espanha dentro até onde as nossas forças permitissem. E até que elas foram benevolentes: levaram-nos a Salamanca, com uma passagem pelo centro histórico da belíssima Ciudad Rodrigo. O que elas, as forças, não contavam era com a nossa pequena traição: chegados por volta das 2 da manha, a cidade estudantil ainda fervilhava, pelo que não tive outra opção que não deixar o Deuch a descansar e juntar-me à la movida. Entre um chupito e uma caña, lá se mete conversa e já sigo em grupo para o próximo spot. É provavelmente a minha caracteristica que mais evolui ao longo destas minhas viagens: a capacidade de conhecer pessoas quando só. È curioso que sendo eu uma pessoa bastante extrovertida e sem grandes laivos de timidez, é algo que não me surge de modo. Pelo contrário, é algo trabalhado pela estrada. De facto, as estrada tem uma extraordinária capacidade de nos “trabalhar”, de por a nu o melhor da nossa essência.
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Finda a noite tempo ainda para mais uma surpresa: ao vaguear pela cidade à procura do melhor sítio para estender o leito, eis que o cechecol simpaticamente oferecido pelo F.C. Porto à partida chama a atenção de dois Tugas. Lá ficamos à conversa juntamente com mais um italiano e um columbiano. Resultado: mais 4 pessoas literalmente banzadas pelo nosos projecto e 4 novos fans incondicionais do Deuch.
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A primeira noite foi assim passada a bordo, um luxo ao qual não tenho qualquer tipo de dificuldades em me habituar. O processo é quase sempre o mesmo: procurar uma bomba de gasolina, esconder o carro com um camião a nascente e adormercer com a esperança que esse camião não parte antes do nascer do sol. Feito isto, foi acordar e rolar calmamente até Madrid.

Guardo para o fim, o ponto alto desta jornada: os meus encontros com a Guardia Civil. Até ao momento, foram 3, tantos quantas as vezes que me cruzei com operações stop. O carro em si já chama a atenção, sobretudo com o mapa que leva desenhado. Agora, tentem imaginar a cena: “ Buenas noches. Adonde va usted? Bien, a Pequin.” No mínimo, um excelente ice breaker. Rapidamente, qualquer que seja a sua missão, ela passa para segundo plano, enquanto a conversa gira em torno da viagem. Resultado: na primeira, logo após a fronteira, não me é pedido qualquer documento, Na terceira, operação anti-droga, é-me pedida a carta de condução seguida de “Usted no lleva qualquier substância psico-tropica, verdad? Lo imagine. Mui buen viage!" Pelo meio, saiu o comentário mais badalado dos muitos já aqui deixados: o dos Guardias Civiles de Ávila (por sinal, outra lindíssima cidade que tivemos a oportunidade de visitar). A ellos, un gran saludo! Muchas gracias por el message e sigan conectados! Al regresso, tenemos que hacer una foto juntos! Eu disse-vos para não negligenciar o enorme capital de simpatía que o Deuch empresta à aventura!

Abraços e beijinhos, respectivamente,

TMA e o Deuch

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Escrito por: TMA & Le Deuch, 12:03:21 | Comentários(71)
Saturday, 10-MAIO-2008
O Plano de Viagem
 

O Objectivo: ligar o Porto a Pequim, ida e volta, desenhando duas rotas distintas e cruzando o maior número de países que o tempo, o orçamento e as burucracias permitam.

Duração: perto de 8 meses, de inícios de Maio a finais de Dezembro.

O Orçamento: estimamos que à volta dos € 40.000,00. Para já, temos dinheiro suficiente para nos lançarmos à estrada. Conseguir o resto é apeas uma outra faceta da aventura. Talvez nos possas dar uma ajuda?
 
1ª Etapa: Europa – Maio:
Iremos cruzar a europa ao sabor do vento, focamos essencialmente na promoção e angariação de fundos para o projecto. Cobertura na imprensa, novos Parceiros, promover o projecto “de boca em boca” e vender o maior número de Postais e T-shirts / Polos oficiais: eis os 3 objectivos centrais. Obviamente, esperamos passar um bom bocado em todo o processo. Iremos visitar Espanha, França, Bélgica, Reino Unido, Dinamarca, Alemanha, Polónia, Lituânia , Letónia e Estónia, não necessariamente por esta ordem. Mas caso surjauma oportunidade num qualquer outro país, teremos todo o prazer em adiciona mais alguns km à nossa rota!
 
2ª Etapa: Rússia e Mongólia – Junho e Julho
O verdadeiro início da nossa aventura: a rota do Trans-Siberiano na sua versão original, unindo São Petesburgo a Vladivostoque, cruzando a Rússia de Oeste a Este. Pelo meio, uma escapadela à Mongólia, terra mística. O primiero salto no desconhecido! O início está previsto para dia 2 de Junho e a chegada “ao fim da Rússia” para dia 31 de Julho.
 
3ª Etapa: China, Os Jogos Olímpicos e os Jogos Para-Olímpicos – Agosto, Setembro e inícios de Outubro.
7 dias para ligar Vladivostoque a Pequim, onde iremos permanecer durante os Jogos Olímpicos e os Jogos Para-Olímpicos (de 7 de Agosto a 17 de Setembro). Findos os eventos, iniciamos a nossa viagem de regresso, primeiro pela costa (Xangai, Hong Kong, Macau, etc), seguindo depois em direcção ao Tibete.
 
4ª Etapa: Nepal, Índia, Paquistão, Irão e Turquia – Outubro e meados de Novembro
Com grande probabilidade, a mais aliciante de todas as Etapas. Acredito que não podemos acrescentar muito mais. Um conjunto de 5 países em cada um dos quais há muito temos a ilusão de nos aventurar.
 
5ª Etapa: Istambul – Meados de Novembro
A nossa cidade predilecta em todo o Mundo que nos foi dado a conhecer até hoje. Por essa razão, não teremos qualquer pressa em nos entregar aos seus (muitos) encantos, nos quais está incluído o da companhia do meu Irmão Muçulmano!
 
6ª Etapa: Europa – Finais de Novembro, Dezembro:
O mais provavel é já só termos a nossa casa, família, amigos e o sabor de uma francesinha em mente. Mas havendo ainda energias, faremos o nosso melhor para dar um novo impulso à promoção e angariação de fundos, para completar o orçamento ou, numa perspectiva mais simpática, apenas reforças o Projecto Social. Isto, claro está, depois de pagarmos tributo a duas cidades incontornáveis em qualquer maratona: Atenas e a própria Maratona.

Mas chega de equações, sonhos ou projectos. Tempo de nos fazermos à estrada! De novo pertinente perguntar: pronto para o desafio? Então toma o teu lugar no banco de trás e aproveitem a boleia!

Escrito por: TMA and Le Deuch, 12:03:49 | Comentários(76)
Sexta, 09-MAIO-2008
Dia 0: O primeiro dia do resto das nossas vidas!
 
"E vem-me à memória uma frase batida: este é o primeiro dia do resto da minha vida".
Nunca este "lugar" foi tão "comum" como hoje. Dia 6 de Maio de 2008, 8:00 da manhã. O meu fiel e inseparável Deuch e eu estamos a cerca de duas horas de embarcarmos na maior aventura das nossas vidas. Depois de "Porto-Palermo & Back" no verão de 2005 e "Porto Istanbul & Back" no verão passado, isto é por si só revelador. Porto - Pequim, sempre por estrada, o 2 Cavalos e eu, com o respectivo regresso. Serão 8 meses de aventura, o mais longo periodo que alguma vez estivemos longe de casa, que nos levarão a locais tão longínquos quanto fascinantes como a Sibéria, China, Nepal, Índia, Paquistão, Irão ou Turquia. Todo um novo mundo a descobrir, todo um mundo de aventuras que vos convidamos a acompanhar, como sempre, "confortavelmente sentados no banco de trás" aos longo dos cerca de 210 dias que nos levarão do Porto ao Porto, via Pequim.
 
Permitam-me hoje ser breve, guardando as palavras e a vossa paciência para as 1001 peripécias que certamente iremos viver ao longo dos próximos meses.
 
Não saiam do vosso lugar: a aventura segue dentro de momentos, num blog perto de si!
 
Abraços e beijinhos, respectivamente,
TMA & Le Deuch
 
 
Escrito por: TMA and Le Deuch, 11:43:33 | Comentários(199)
Quinta, 00-00-0000
Uma pausa... na Pausa!

  
Não! Não voltei ao fato e à gravata, à claustrofobia dos horários rotineiros, nem o Código Civil substituiu as deliciosas leituras que me têm acompanhado. Mas, por mais difícil que seja acreditar, isto de viajar dá muito trabalho... Assim, depois de 2 meses e mais de 13.000 km, tiramos uns dias de férias!

Como tudo nesta nossa “sub (talvez “sobre” fosse o termos mais correcto)-vida” de 8 meses, tudo surgiu de forma inesperada. Após uma noite mal dormida no carro (sempre que caia num sono merecedor da palavra, era acordado por um velho que nos exigia 5 Rublos, cerca de € 0.15, para podermos ficar ali parados...), um camião que quase capotou numa ravina retêm-nos por mais de uma hora numa ponte. Com o calor a intensificar a necessidade de um banho, impossível não reparar num simpático conjunto de casas que se estendia ao longo da margem do rio e nos alegres risos e gritos das crianças a brincar na àgua. Assim que o caminho ficou desimpedido, o ansiado mergulho transformou-se numa estadia de 5 noites nesta pequena instância fluvial. Uma espécie de resort à Russa, num cenário de grande beleza natural salpicado por todas aqueles adoráveis flops locais.

Depois de duas semanas nas grandes e dispendiosas metropoles, o luxo de uns dias de puro dolce fare niente num modesto, mas confortável quarto (literalmente) sobre o rio e 3 refeições diárias por uns módicos €18/dia soaram como um bálsamo. Não apenas para o nosso espírito nómada, mas também para a nossa depauperada carteira. A pesar na decisão, a perspectiva de poder dedicar-me de corpo e alma à leitura de Cisnes Selvagens – Três Filhas da China, de Jung Chang, um hipnotizante livro oferecido pela minha amiga Ana Mixa na noite anterior à partida. Nas suas próprias palavras, conhecendo a história de um país, melhor se compreende o seu povo. Na muche, Ana! O livro relata a história de uma família chinesa ao longo de 3 gerações, centrada na vida das suas três principais mlheres (avó, mãe e filha), contada na primeira pessoa pela mais jovem das 3. Uma família que á a metáfora de um país e todas as revoluções e convulsões politicas e sociais que ele conhecei nos dois últimos séculos. Um livro cuja leitura recomendo vivamente, independentemente do vosso plano de viagens!
 
Para além do cenário já descrito, encontramos aqui a já habitual hospitalidade local, que aliás parece aumentar a cada km que nos afastamos dos grandes centros. Poucas, muito poucas são as pessoas que falam Inglês. Mas depois de uma timidez inicial (que aqui é sempre muito breve), todos, trabalhadores e hóspedes, fizeram questão de cumprimentar, trocar umas palavras e tirar uma foto com o Português. Por uma vez, o exotismo do meu distante país e do meu actual modo de vida retirou ao Meu Pequenino o papel principal. Inevitavelmente, porém, foi inteiramente de sua autoria a segunda vaga de espanto.

Nesta primeira oportunidade que temos de para para pensar em toda a estrada já percorrida, torna-se apenas mais evidente o tanto que há para contar e o tão pouco tempo que temos para o fazer. Por diversas vezes encontrei-me perdido na frustração de não poder fotografar e filmar com os meus próprios olhos. Talvez o meu filho terá um dia esse privilégio, quando se lançar nas suas próprias aventuras. Entretanto, enquanto os filmes mentais são ainda uma distante ilusão, têm de se contentar com as minhas palavras e os meus limitados dotes de fotografo!

P.S. - mesmo longe, continuamos "bem perto". Fica o link para uma entrevista dada para a TVNET:
Escrito por: TMA & Le Deuch, 11:45:22 | Comentários(88)
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